A temática do presente projeto tem com objetivo estudar a gramática social das desigualdades na globalização em relação aos grupos desfavorecidos, em especial mulheres migrantes de regiões com precárias condições sócio-culturais-econômicas.

O presente projeto visa obter recursos para o desenvolvimento de uma pesquisa com mulheres migrantes brasileiras. O estudo servirá como uma interface junto ao projeto aprovado recentemente pela MESH - Maison Europeenne des Sciences de l'Homme et de La Société, da França, e que contempla a luta das mulheres migrantes nesse último país, na busca pelo reconhecimento social, devendo ser realizado pela equipe da Université de Lille3, equipe a qual estamos integrando na qualidade de pesquisador estrangeiro convidado.

O desenvolvimento da pesquisa, como um todo, implica na construção de redes, não só para comparações interculturais da questão, em uma perspectiva de globalização, mas também possibilidades futuras de ação, através de pesquisas participativas e action research dentro das premissas de educação para o desenvolvimento sustentável ou durável. A possibilidade da pesquisa estar previamente inserida na perspectiva de um projeto intercultural permite-nos avançar, em termos menos abstratos, na chamada globalização, e especialmente numa questão chave, como globalização e feminização da pobreza (D’Ávila Neto, 2005, Bahri, 2006 , Boaventura Santos, 2006).

A idéia é comparar, posteriormente, os resultados, para assim buscar uma melhor compreensão das lutas pela Justiça Social e Participação de mulheres, entendendo as desigualdades nesses diferentes contextos e traçando novas perspectivas para um desenvolvimento durável, em termos globais e locais. A condução dos estudos obedece a um protocolo bilateral previamente estabelecido para permitir esse tipo de analise, com a
participação da pesquisadora proponente, como membro convidado da equipe francesa.

No Brasil, a pesquisa será realizada por uma equipe associada ao programa EICOS/Cátedra UNESCO de Desenvolvimento Durável, com mulheres que migraram para as grandes cidades em busca de melhores condições de vida. Na França, a pesquisa será realizada pela Université de Lille 3 com mulheres migrantes oriundas da África sub-saariana, também submetidas a condições de desigualdade social.

GLOBALIZAÇÃO, MULHERES, MIGRAÇÃO E POBREZA

Desde os anos 80, o desenvolvimento durável, foi considerado principalmente sob a dimensão ecológica – preservação de recursos naturais para gerações futuras. Com as Cúpulas no Rio de Janeiro, em 1992, e em Johannesburg, em 2002, o capital social e humano teoricamente passou a ocupar um lugar, assim como o capital físico financeiro natural, no patrimônio a ser transmitido as gerações futuras. Entretanto, esse projeto de durabilidade social do desenvolvimento, essa proposição de favorecer um estado de harmonia entre os seres humanos (Rapport Brundtland, 1987), se furtou a considerar as questões de pobreza, vulnerabilidade e desigualdade social em um contexto de globalização marcado por migrações permanentes devido às pressões econômicas culturais, militares ou climáticas – contexto no qual o estado torna-se cada vez mais um lugar transitório temporário e seus habitantes cada vez mais apátridas (Butler et Spivak, 2007).

Vivendo em contextos sócio-econômicos e culturais diferentes, as mulheres de grupos desfavorecidos têm em comum encarar não só a desigualdade em seus lares sob as quais repousa a economia das sociedades ditas modernas (Beck, 2001), mas também, enquanto migrantes, as dificuldades de acesso a recursos, tais como habitação, emprego, saúde, educação para as crianças. Como atrizes sociais do desenvolvimento por solidariedade, compartilham saberes, como temos visto em várias partes do planeta.

O desenvolvimento teórico conceitual dessas questões se apóia sobre as reflexões dos estudos Pós-Coloniais (Lazarus, 2006; Said, 2005; Boaventura Santos, 2006), Estudos Culturais (Hall, 2007), assim como os teóricos da Justiça Social, a partir dos trabalhos de Nancy Fraser (2001) e de Axel Honneth (2003). Além disso, o registro visual das narrativas é utilizado como recurso metodológico como indicado por Braidotti (2000), Francis (2002) e D’Ávila Neto (1987, 1994, 2001, 2007).

Esta pesquisa inserida no campo dos Estudos Culturais e Pós-Coloniais representa uma contribuição para a questão, uma vez que poucos estudos empíricos foram feitos enfocando a participação de mulheres migrantes e pobres no desenvolvimento durável, tentando compreender suas identidades pelo viés da diáspora, em suas condições de cultura híbrida e fluida (Hall, 2007).

Nesse sentido, teremos a oportunidade de refletir sobre algumas questões da globalização ou mundialização, no que diz respeito às mulheres desfavorecidas. É preciso levar em conta que muitas pesquisadoras feministas recusam cindir o mundial e o local pressupondo que o transnacional possa ser traduzido a partir do local numa espécie de continuum (Freeman, apud Bahri, 2006). Considerando que ‘o capital e a indústria não tem mais fronteiras nacionais’ (Bahri, 2006), é preciso compreender a importância desta leitura: podemos considerar os processos locais e os atores se abrindo gradativamente da mesma forma com que a mundialização é feita’(Freeman, apud Bahri, 2006).

Continuam sendo necessários os debates sobre o polêmico papel das mulheres no processo da mundialização e do desenvolvimento, visto a manutenção das estruturas do trabalho ‘invisível’, ou doméstico, que não está inserido nas cadeias de produção (D´Ávila Neto, 2005). O que está evidenciado na divisão social e sexual do trabalho é a transformação da conscientização da mulher e dos valores sociais ocorridos nas últimas décadas do século XX. Apesar disso, as jornadas de trabalho feminino continuam quádruplas como nos indica Castells (2001): o trabalho remunerado, a administração do lar, a educação das crianças e o trabalho sexual noturno. A prestação de serviços de caráter informal é uma alternativa para as mulheres pobres nos países em vias de desenvolvimento, como o Brasil: a maioria das mulheres que migram para as regiões mais ricas busca melhores condições de vida ou empregos temporários (MacDowell, 2008).

A luta pelo reconhecimento social é fundamental para a compreensão dessa gramática moral das desigualdades. Autores como Honneth (2003) e Fraser (2005) dão um importante apoio teórico no exame dessas questões, que passa por diferentes dimensões, como étnicas, ou de gênero, por exemplo. Identificam-se assim não só as demandas primárias de reconhecimento como o amor, a amizade, ou de direitos civis/ humanos, de solidariedade, enfim, demandas de reconhecimento de identidades que têm um lado cultural – num sentido mais amplo – das populações e ao mesmo tempo demandas econômicas que se referem ao aspecto da redistribuição e que nos conduzem as questões do poder, como observadas por Nancy Fraser (2001), referindo-se à questão de gênero:

Constata-se que: os oprimidos, dominados ou desfavorecidos não são blocos homogêneos, é preciso considerar na pesquisa participativa a complexidade sócio-cultural das opressões. Dar voz aos oprimidos não quer dizer evidenciar todos os tipos de opressão, como por exemplo, de gênero/sexo nos seus direitos e identidades de pertencimento. Há muitas outras frentes de combates e de antagonismos que caracterizam o poder disperso (D´Ávila Neto, 2004). Esse poder disperso é observado nas dimensões de uma cultura híbrida, fluida e ‘fragmentada’, muitas vezes não logocêntrica que se exprime enquanto ‘grupo culturalmente
minoritário’ por seu corpo, suas artes de tecer, bordar, cozinhar, cuidar, sua música e sua dança (Francis, 2002; Hall, 2007; D´Ávila Neto, 2007).

As mulheres brasileiras pertencentes às camadas mais favorecidas, com predominância de cor de pele clara, conseguiram ultrapassar esse estágio de corpo como único capital cultural e passam a ter acesso à cultura logocêntrica, com domínio da leitura e escrita. Isso também vai ocorrer com um certo número de negras, mulatas e descendentes de índias, embora em proporções desiguais, na intricada gramática da desigualdade social da globalização (Boaventura Santos, 2006).

É preciso encontrar uma nova gramática do tempo, uma nova cultura política que possa assegurar esse novo mundo pós-colonial para que se garanta às mulheres desfavorecidas o que Boaventura Santos (2006) preconiza como ‘a ecologia do reconhecimento’. Por que e como as populações participam? É necessário estabelecer uma gramática moral dos conflitos sociais (Honneth, 2003, Fraser, 2005) se pretendemos políticas sociais mais eficazes dentro uma perspectiva dita globalizada do desenvolvimento, que deve ser sensível, antes de tudo às diferenças, sem hegemonias que pregam um falso reconhecimento (Boaventura Santos, 2006 Honneth, 2006).

OBJETIVO GERAL
Investigar a gramática social das desigualdades na globalização em relação aos grupos desfavorecidos, em especial mulheres migrantes de regiões com precárias condições sócioculturais- econômicas. Dentro dessa perspectiva é necessário considerar que a participação não se resume à aplicação de técnicas ditas participativas para as ‘formulações democráticas’. É preciso levar em conta a multiplicidade de questões que envolvem essa participação, incluindo aquelas nomeadas como culturas locais, mundialização, hibridismo cultural, reconhecimento e redistribuição. Utilizando metodologia de pesquisa participativa, de cunho psicossociólogico, com vídeo aplicado à pesquisa (D’Avila Neto, 2002), serão exploradas prioritariamente duas questões: as representações do trabalho e do ‘ser mulher no trabalho’; e o reconhecimento social dessas mulheres (Fraser, 2008); (Bonacich,E; Alimahomed,S.; Wilson, J., 2008).

OBJETIVOS ESPECÍFICOS
• Estudar as representações de mulheres migrantes desfavorecidas tendo em vista seus cotidianos, assim como o trabalho feminino, remunerado ou não;
• Identificar as estratégias comunitárias sobre a integração dessas mulheres nos novos paises e/ou regiões, bem como sua dinâmica e participação;
• Identificar o potencial local das associações, lideranças e cooperativas, visando o reconhecimento e a autonomia (empoderamento) das mulheres;
• Promover as redes de ações de desenvolvimento local, frente às mulheres migrantes ajudando a integração das ações coletivas da sociedade civis e agentes locais, seja do Estado, ou não governamental;
• Promover as redes de ações para a valorização do potencial das mulheres em relação aos elementos culturais a serem preservados e/ou renovar sobre a forma da construção de um banco de dados e imagens;
• Criação e reforço de redes sociais a partir de dados armazenados no banco, assim podendo fazê-lo online ou no local junto às antenas de acolhimento;
• Disponibilizar vídeos de cunho didático, pedagógico e informativo, material a ser utilizado em pesquisas participativas que envolvem o treinamento e a sensibilização de mulheres e comunidades.

METODOLOGIA
Seguindo uma metodologia denominada feminista, preconizada por inúmeros autores como Maria Mies, acadêmica e feminista alemã, e de tantos outros pesquisadores, como ela inspirados em Paulo Freire e nas premissas da action research, pretendemos desenvolver uma pesquisa participativa com a criação de redes, onde é indispensável ‘fazer para transformar’ (Montero, 2006), o que ratifica as preocupações de Fraser (2001) que preconiza ‘remédios corretivos’ e ‘remédios transformadores’. A pesquisa participativa será complementada por estudos etnográficos e psico-sociológicos, envolvendo o registro de dados e imagens locais, testemunhas e narrativas de vida, grupos focais e oficinas.

Partimos da premissa da educação popular de Freire (1977) que nos indica um leque de experiências fundamentadas na prática, ou seja, no fazer. Toda conscientização é reversível se não for apoiada em novas cadeias de simbolização, concretizadas por novas significações do trabalho. Assim, nós podemos indicar uma divisão para fins didáticos de ações de pesquisa levando em conta a sinergia existente na prática.

A utilização do vídeo mostra inúmeras linguagens corporais e gestuais que abrem novas perspectivas para a pesquisa. Através da imagem, a compreensão da vida cultural e social é ampliada. A cenografia de sujeitos de enunciado culturalmente minoritários é uma preocupação de Francis (2002), que se propõe a examinar a obra pós-colonial, onde a “alteridade tem ressonâncias, enquanto obra de ruptura em busca de uma expressão suscetível de traduzir experiências de vida radicalmente diferentes de uma tradição européia [...], um retorno a formas primitivas da sensibilidade e da imaginação”.

A questão ainda permanece para efeito do que iremos procurar em nossas narrativas de mulheres. Temos sugerido (D´Ávila Neto (1989,1994,2005) a necessidade de se introduzir o registro visual para se captar o discurso de mulheres, especialmente em grupo desfavorecidos ou minoritários culturalmente, fora dos códigos ou da cultura logocêntrica (Hall, 2007). A utilização do vídeo como técnica psicossociológica no registro da etnografia, entrevistas individuais e grupos, com realização de videofeedback têm se revelado particularmente eficaz e será utilizada na pesquisa.


PARTICIPANTES DO PROJETO
Coordenadora
• Maria Inácia D´Ávila Neto

Pesquisadores
• Maria Cecília de Mello e Souza
• Simone Ouvinha Peres
• Sônia Regina Corrêa Lages
• Tânia Maria de Freitas Barros Maciel

Estudantes
• Beatriz Aceti Lenz Cesar
• Cláudio São Thiago Cavas
• Gabriel de Sena Jardim
• Juliana Nazareth
• Marie Louise Trindade Conilh de Beyssac

Técnico
• Ricardo Xavier de Barros – Graduação – Assistente de Pesquisa