VÍDEO na PESQUISA

Jean Rouch introduziu o conceito de «câmera participante» em relação à observação participante. Sua influência é grande no que podemos chamar de etnologia da imagem. Para Rouch, deve-se proceder aprofundando aspectos interiores mais que os exteriores, o que, conforme Mc Dougall, pode levar a "uma impressão ilusória de compreensão" . Jean Rouch, entretanto, vai muito mais longe em seus métodos não ortodoxos:

"Para mim a única maneira de filmar é andar com a câmera, conduzí-la onde ela é mais eficaz. (...) A camera se torna assim tão viva quanto as pessoas que ela filma''. À propósito do feedback (ou retorno da imagem), que ele chama de "contre don audio-visuel", Rouch, diz em um artigo, escrito em 1979: "Amanhã será o tempo do vídeo em cores autônomo, das montagens magnetoscópicas, da restituição instantânea da imagem registrada, ou seja, do sonho conjunto de Vertov e de Flaherty, um «cine-ouvido-mecânico» e de uma câmera tão participativa que ela passará para as mãos daqueles que, até aqui, estiveram atrás das câmeras."

Esta é uma proposição que se encontra com a de Mc Dougall: «Um novo passo será dado quando a participação se realisar no nível da própria concepção do filme."

Rouch, da mesma forma que France, preconiza a necessidade de o pesquisador se tornar também cineasta, isto é, o pesquisador deve ser o responsável pela filmagem: "Pessoalmente eu sou, a não ser em caso de força maior, violentamente contrário à contratação de uma equipe cinematográfica (...) E, na minha opinião, somente o etnógrafo pode saber quando ou como filmar, em suma, como dirigir."

Claudine de France fala de um certo caráter ''semi-inconsciente" da pesquisa com o recurso da imagem:
"Filmar sem estar totalmente consciente dos principios metodológicos aos quais nos referimos e dos procedimentos de apresentação que colocamos em prática não é, ao nosso ver, incompatível com uma reflexão metodológica durante os períodos em que não se está filmando. Trata-se de uma alternância, muitas vezes, fecunda entre fases da pesquisa dominadas pela ação e pelo pensamento". (France, 1982).

O CORPO E O VÍDEO

Nadine Wanono , fiel à tradição de Jean Rouch, descreve cuidadosamente a filmagem da fabricação de óleo de amendoim e de gergelim pelas mulheres de Dogon, na África. Sua forma de apreensão do ritual das mulheres Dogon elegeu o corpo destas como fio condutor de seu filme.

France indica, também, que uma das primeiras coisas que a imagem coloca em evidência é a atividade incessante do corpo. Ela destaca os três eixos dos comportamentos técnicos: corporal, material e ritual.

"A imagem não pode apreender o corpo sem fazer referência ao suporte material ou à finalidade igualmente material de sua atividade (...) O corpo e as operações materiais apresentadas pela imagem remetem juntos, por sua própria aparição, aos seus aspectos ocultos da sociedade, situados fora do campo da delimitação (...) e graças aos quais todo o gesto é também um rito. (...) A imagem do filme sempre delimita um momento da relação entre corpo, matéria e rito no seio da cadeia de cooperação.".


Ela mostra que um certo número de procedimentos, tais como enquadramentos, ângulos de visão, movimentos da câmera vão destacar um destes aspectos segundo a orientação metodológica do pesquisador. No que concerne à linguagem gestual, a utilização do vídeo se torna uma peça central e "longe de ser uma ilustração da enquete oral e do texto: a inversão da relação entre observação e linguagem deve abrir novas perspectivas para a descrição escrita dos comportamentos técnicos o que acaba sempre por gerar problemas de sobrecarga textual." A utilização da imagem é uma nova via metodológica para a compreensão da vida cultural e social.

Em sua pesquisa sobre as mulheres de Dogon, Wanono pode observar que as posturas que as mulheres utilizam "são regidas pelo costume, pelo rito, e veiculam uma grande parte da história da tradição Dogon", o que leva à conclusão de que "o corpo é uma imagem do tempo que passa."

"O primeiro e o mais natural objetivo técnico e ao mesmo tempo meio técnico do homem é o corpo"

Marcel Mauss