REFLEXÕES METODOLÓGICAS

REFLEXÕES SOBRE METODOLOGIA PARTICIPATIVA E MULHERES DESFAVORECIDAS

Devemos ter uma metodologia específica para o estudo das mulheres?

Consideremos dois aspectos:

• A questão da mulher deve ser um tema transversal a todas as disciplinas e não restrito a uma só disciplina ou «estudo de mulheres»;
• Se a pesquisa participativa é uma metodologia de conscientização ou «emancipatória», ela deve ser um meio privilegiado de pesquisa para, e sobre, as mulheres.

Esta direção nos conduz a ensaiar um resposta para a questão: como os estudos feministas podem contribuir para um melhor processo de desenvolvimento?

Em primeiro lugar, os estudos sobre as mulheres dos países menos desenvolvidos constituem uma fonte importante de reflexão e crítica sobre as condições às quais as mulheres são submetidas. Em segundo lugar, os estudos nos mostram as assimetrias sociais entre o norte e o sul, produzindo também uma crítica sobre a hegemonia do feminismo ocidental em relação às mulheres dos países em desenvolvimento e, sobretudo, em relação às latino-americanas.

Vandana Shiva, doutora em física e feminista indiana, declarou há alguns anos na reunião das Nações Unidas sobre a Década das Mulheres: "A participação insuficiente das mulheres não é a causa do subdesenvolvimento crescente das mulheres, é a conseqüência de sua participação forçada e assimétrica em um processo onde elas pagaram o preço mas não receberam os benefícios."

Quando falamos de pesquisa participativa sobre (e/ou para) as mulheres, não nos referimos apenas às orientações psicossociológicas; há também, atualmente, uma orientação antropológica influente que trabalha com histórias de vida, ou seja, como o grupo, objeto de pesquisa, construiu sua história e como elas são «traduzidas» pelos pesquisadores. Ruth Behar , antropóloga americana de origem latina, escreveu um trabalho de referência obrigatória atualmente: Translated Women.

Quando examinamos a questão das mulheres latino-americanas, observamos, como já fizemos em trabalhos sobre a autoridade patriarcal no Brasil e a mulher, que as mudanças não são sincrônicas, ao contrário, as mulheres latino-americanas se tornaram modernas sem abandonar a tradição.

Maria Mies, socióloga alemã, por exemplo, segue a tradição inspirada por Paulo Freire e utilizada por inúmeros pesquisadores dedicados à educação popular feminista. Em um artigo sobre a Ciência, Violência e Responsabilidade, reproduzido no livro Ecofeminismo, publicado em conjunto com Vandana Shiva, ela indica as linhas de força deste tipo de pesquisa que resumimos aqui:

1. Deve haver uma identificação parcial entre os objetos de pesquisa; não deve haver mais a pesquisa asséptica nem a pesquisa sem noção de valores

2. Visão de baixo para cima e não somente de cima para baixo. A visão acadêmica deve levar em conta a realidade dos sujeitos e, sobretudo, como os sujeitos vêem sua própria realidade.

3. Ela indica o fim do conhecimento puramente teórico no sentido contemplativo. Ela diz não a Max Weber separando a ciência e a política da praxis.

4. A pesquisa deve promover a conscientização da opressão, inspirada em Paulo Freire (educação popular).

5. A pesquisa deve ir além da apropriação da «história individual e social da mulher: as mulheres não podem se apropriar de sua história individual a menos que se apropriem de suas próprias experiências».

 

Notas
1) "MIES, M., SHIVA, V. Ecofeminismo. Lisboa, Piaget, 1999"
2) "BEHAR, R. Translated Women. Beacon Press, 1985."
3) "MIES, M., SHIVA, V. Ecofeminismo. Lisboa, Piaget ,1999."