PESQUISA PARTICIPATIVA E CULTURA LATINO-AMERICANA


"A Quais são os desafios da pesquisa participativa conduzida a partir de uma perspectiva de desenvolvimento? Quais são as estratégias pretendidas por este tipo de pesquisa e por aqueles que a praticam? Para procurar responder a essas questões, analisaremos, com base em
nossa experiência no Brasil, a trajetória da pesquisa participativa enquanto método privilegiado de uma psicologia social das comunidades desfavorecidas, com grande influência da educação popular. A escolha do Brasil justifica-se por indicar nossa própria experiência. Contudo, ao falar da América Latina, não temos a pretensão de representar toda a complexidade cultural latino-americana a partir da visão do Brasil, embora este, com suas dimensões continentais e sua diversidade, cultural possa indicar diversas tendências latino-americanas sem, contudo, esgotá-las.

Segundo as mais recentes estatísticas do PNUD, o desenvolvimento humano (expectativa de vida, índice de escolarização, renda per capita) é considerado elevado na América Latina na Argentina, Chile e Uruguai; os demais países, inclusive o Brasil, são designados como sendo de desenvolvimento médio; um único país da América Central é considerado como de desenvolvimento fraco, o Haiti.

Devemos falar em uma identidade latino-americana? As concepções construtivistas, em oposição às essencialistas, não podem responder a esta questão. É melhor dizer: existem inúmeras Américas Latinas, certamente fruto das dissincronias às quais nos habituamos, de tal forma que aprendemos a nos definir não por aquilo que somos ou pretendemos ser, mas, sobretudo, por tudo aquilo que não somos, nosso oposto.

Esta tese parece ser a de alguns brasilianistas como o americano Richard Morse, e ainda de outros escritores e pesquisadores latino-americanos como: Bosi, Darcy Ribeiro, Octavio Paz, Ibañez, e tantos outros, que muito falaram a respeito dessas oposições presentes no interior mesmo do cotidiano latino-americano .

......A América do Norte fala inglês e é filha da tradição que fundou o mundo moderno, especialmente no que diz respeito a seus três processos fundamentais: a Reforma, a democracia e o capitalismo.

A América do sul fala espanhol ou português e é filha da monarquia católica e da contra-Reforma. Da mesma forma, não conseguimos ser os herdeiros legítimos da modernidade e/ou da pós-modernidade européia.

... O liberalismo não foi fértil e não logrou produzir nada de comparável às criações pré-colombianas ou da Nova Espanha: nem pirâmides, nem conventos, nem mitos cosmogônicos, nem poemas de Soror Juana Ines de la Cruz.

... No princípio do século XX já estávamos instalados na pseudo-modernidade: as estradas de ferro e as grandes propriedades rurais, uma constituição democrática e chefes (caudilhos), na melhor tradição hispano-árabe, filósofos positivistas e caciques pré-colombianos, poesia simbolista e analfabetismo.

Esta dissincronia responde como marca de uma cultura híbrida, ou ainda, das culturas híbridas da América Latina. Quando dizemos híbrida, o que concebemos é a tradição ao lado do moderno e, aqui, dizemos ao lado, e não oposta. Quando falamos em dissincronia supomos mais de uma temporalidade, ou seja, temporalidades coexistentes na linha do projeto assumido como o do desenvolvimento latino-americano.

Os países latino americanos são o resultado da sedimentação, justaposição, e entrecruzamento das tradições indígenas (em especial, a meso-americana e a andina), do hispanismo colonial católico e das ações políticas educativas e comunicacionais modernas.

As agendas dos organismos internacionais e suas grandes conferências mundiais (summits/sommets) vão promover diversas pesquisas com essa denominação e objetivos, pois elas são admitidas como um meio privilegiado para chegar às camadas mais desfavorecidas e aos problemas-chaves entre o norte e o sul. Esta influência é mais forte na América Latina, através das ONGs, sabendo-se do enorme apoio que tiveram por parte dos organismos internacionais, notadamente, entre os anos 60 e 80. As universidades e o mundo acadêmico permaneceram reticentes em relação a esses novos paradigmas, em especial os comitês oficiais de pesquisa. Nos anos 90, com uma nova orientação de alguns organismos internacionais em direção às universidades, deixa-se um pouco essa espécie de "marginalidade" acadêmica, com a possibilidade de levar a cabo pesquisas mais aprofundadas.

Podemos observar também que, após o fim dos regimes militares, assistimos a um florescimento das parcerias entre as universidades e centros de pesquisas oficiais e a sociedade civil, em especial através das ONGs.

Kurt Lewin, cientista social alemão, radicado nos Estados Unidos, foi um dos pioneiros da chamada "pesquisa ação" (action research). Esta concepção lewiniana influenciada pela teoria da Gestalt apresenta uma pesquisa indissociável da ação.
Dois aspectos são essenciais nessa concepção de pesquisa: primeiro, o pesquisador não se dicotomiza em relação ao seu objeto, em uma neutralidade positivista, isto é, a própria ação de observação modifica o objeto observado. Podemos identificar aí o que muitos autores chamaram de implicação do pesquisador. Um segundo aspecto é relativo ao processo de feedback, ou seja, o retorno do que foi coletado aos próprios sujeitos da pesquisa que, discutindo os resultados e projetando uma ação, tornam-se atores no processo de pesquisa.

John Dewey indica o feedback como um
"processo autocorretor da enquete". Segundo René Lourau , Dewey foi um dos melhores práticos e teóricos da implicação na pesquisa.

Anthony Giddens também assinala que: "a posição do observador não é diferente de outros membros da sociedade. O conhecimento mútuo representa os esquemas interpretativos que sociólogos e atores utilizam para dar um sentido à atividade social (...) A imersão numa forma de vida é o único meio pelo qual um observador é capaz de produzir tais caracterizações. IMERSÃO não é tornar-se membro de uma comunidade - Conhecer uma cultura estrangeira, diferente, é encontrar seu caminho nesta cultura e aí participar."

Pesquisa Participativa - Alguns sites de referência:

http://comm-dev.org/partres.htm
http://www.goshen.edu/soan/soan96p.htm
http://www.parnet.org

 

NOTAS
1) "A escolha do Brasil justifica-se por indicar nossa própria experiência [(hiperlink para pg. PROGRAMA EICOS)]. Contudo, ao falar da América Latina, não temos a pretensão de representar toda a complexidade cultural latino-americana a partir da visão do Brasil, embora este, com suas dimensões continentais e sua diversidade, cultural possa indicar diversas tendências latino-americanas sem, contudo, esgotá-las.""
2)"expectativa de vida, índice de escolarização, renda per capita"
3) "D'ÁVILA NETO, M.I. Identidade da psicologia social latino-americana, in R.H. FREITAS, P. GUARESCHI (dir.), Paradigmas em psicologia social: a perspectiva latino-americana. Petrópolis, Vozes, 2000."
4) "CANCLINI, N.G. Culturas híbridas: estratégias para entrar y salir de la modernidad. Mexico, Grijalbo, 1989."
5) "LEWIN, K. Les conflits dans les modes de pensée aristotélicien et galiléen dans la psychologie contemporaine (1931), in C. FAUCHEUX, (dir.). Psychologie Dynamique. Paris, PUF, 1967."
6) "DEWEY, J. Logique et théorie de l'enquête (1938), cit. par R. LOURAU. Actes manqués de la recherche. Paris, PUF, 1996."). Segundo René Lourau."
7) "LOURAU, R. Actes manqués de la recherche. Paris, PUF, 1996."
8) "GIDDENS, A. Novas regras do método sociológico, Ed. Gradiva, Lisboa, 1993."