OFICINA de MULHERES

A Oficina de Cidadania da Mulher surgiu num contexto de interação entre universidade e comunidade, e se constituiu numa tentativa de atender uma demanda local por um trabalho com mulheres.

Como a demanda era bastante vaga, partimos de um trabalho inicial que tinha como proposta conhecer melhor a realidade das lideranças comunitárias do Lote XV, em Belford Roxo, Rio de Janeiro, oferecendo os subsídios necessários para uma intervenção posterior que, privilegiando metodologias participativas, deveria ser realmente útil e estar de acordo com as expectativas das mulheres da região.



"A idéia é partir da cultura e dos saberes locais, propiciando que cada grupo participe e seja responsável por seu processo de desenvolvimento - se apropriando e se identificando com este".

A principal marca observada no discurso das lideranças comunitárias foi a contradição originada no fato de terem sua identidade construída enquanto mães – dentro do espaço privado – e terem, ao mesmo tempo, uma atividade que as articula com o espaço público. Com efeito, a contradição parecia evidente no novo lugar ocupado por estas mulheres. Daí o nome do trabalho – "Mulheres fora do lugar"- título também um vídeo cuja idéia foi ilustrar os conflitos vividos pelas mulheres entrevistadas, evidentes nos seus próprio discursos.

A Educação Popular Feminista visa a renegociação das condições de gênero, atentando para a forma como outras categorias sociais como raça, cultura, etnia, idade, classe social e sexualidade participam na sua construção.

Assim, foi se evidenciando a necessidade de uma intervenção emancipatória, facilitadora do processo de reflexão crítica da própria realidade. Segundo Paulo Freire, esta seria a base da conscientização – processo que culmina na ação, ou numa postura mais ativa, em que se assume a responsabilidade em relação à própria história e às possibilidades de mudá-la.

Estas idéias de Paulo Freire foram retomadas pelas feministas que, instrumentalizadas pelo conceito de empoderamento, sistematizaram o que passaram a chamar "Educação Popular Feminista" . Esses foram os pressupostos teóricos norteadores da Oficina.

O fundamental, nesse tipo de trabalho, é partir das experiências mais próximas das mulheres - o ambiente doméstico, a vizinhança, a família, o lugar dos sentimentos e emoções - através de referências concretas do cotidiano e não de referências abstratas. Esse processo tem como objetivo revelar o cotidiano como intrinsecamente político e relacionado com questões sociais e hierárquicas mais amplas de opressão. Trata-se de um processo bastante delicado, já que a valorização das experiências individuais pode vir a corroborar uma interpretação redutora do universo feminino; mas, o desafio enfrentado é justamente ilustrar, a partir das diferentes experiência das mulheres, a heterogeneidade da categoria "mulher".

No trabalho com grupos de mulheres utilizamos, ainda, algumas dramatizações baseadas no método do Teatro do Oprimido , que estabelece total afinidade tanto com o videofeedback, como com a Pedagogia do Oprimido de Paulo Freire. A idéia era de que esta aliança pudesse viabilizar a percepção, no "aqui e agora", de dados até então imperceptíveis, tanto para nós, pesquisadoras, quanto para as pesquisadas . Assim, poderíamos estar construindo mais um caminho no sentido de levar estas mulheres à uma reflexão crítica sobre sua própria realidade.


TREINAMENTO

Descrição: A Oficina de Cidadania da Mulher foi estruturada a partir do conceito de empoderamento que, conforme proposto por Nelly Stromquist, divide-se em quatro níveis: cognitivo, psicológico, econômico e político.
Cada nível foi tratado a partir de temas específicos, usando sempre metodologias participativas e o vídeo como instrumento.

Público-Alvo: Mulheres de classes urbanas desfavorecidas.
Objetivo: Sensibilização de gênero e Empoderamento.
Duração: três dias
Palavras Chaves: Gênero; Cidadania; Saúde; Sexualidade; Direitos Humanos; Projetos Locais de Desenvolvimento

Material Necessário:
¸ Uma sala grande;
¸ Cadeiras móveis;
¸ Flipchart;
¸ Câmera de vídeo;
¸ Vídeo-cassete;
¸ Televisão ou Telão;
¸ Folhas de papel;
¸ Canetas coloridas.

---- PRIMEIRO DIA
Temas Abordados: Empoderamento cognitivo, sensibilização de gênero, divisão sexual do trabalho.

- Manhã:
• Inscrição das participantes;
• Apresentação do grupo de forma dinâmica;
• Contrato;
• Introdução: Levantamento das expectativas do grupo e da equipe; Descrição dos objetivos e metodologias.
• Intercâmbio de experiências: lembrança e discussão de situações de opressão vividas pelas participantes; eleição de situações representativas para serem dramatizadas.
• Filmar as dramatizações para o uso no videofeedback.

- Tarde:
• Chuva de idéias: o que vem à cabeça quando se pensa em Mulher e Homem (escrever no flipchart);
• Retomando os temas das dramatizações, falar sobre os papéis diferentes de homens e mulheres na sociedade introduzindo os conceitos de sexo e gênero;
• Construção de um relógio do dia: construir um relógio de 24hs individualmente. Explorar a historicidade da divisão sexual do trabalho e temas como: dupla jornada feminina, legitimação e remuneração do trabalho feminino.
• Fechar o dia com uma música que aborde temas representativos da realidade do grupo.

---- SEGUNDO DIA
Temas Abordados: Empoderamento psicológico, auto-estima, saúde e sexualidade, Empoderamento político, direitos da mulher.

- Manhã:
• Videofeedback das dramatizações do dia anterior. Perguntas sugeridas para introduzir a discussão:
• Por que isso acontece? Por que uma mulher age assim?
• Como devem reagir as mulheres frente às situações mostradas? Imaginar outro tipo de reação.
• Discussão sobre auto-estima: trabalhar as vantagens e desvantagens de ser mulher. Existe um modelo único ou ideal de mulher?
• Sexualidade e saúde: conhecimento, apropriação e responsabilidade sobre o próprio corpo.
• Discussão em pequenos grupos sobre temas como: DST/AIDS, menstruação, doenças de mulher.
• Apresentação dos principais pontos das políticas públicas de saúde da mulher.

- Tarde:
• Direitos da mulher: apresentação de situações cotidianas vividas por mulheres. As participantes deveriam classificá-las como justas ou injustas.
• Divisão em pequenos grupos e distribuição de folhas com "problemas de mulher": divórcio, trabalho, saúde, violência doméstica. Trocar idéias sobre as possíveis soluções para os casos apresentados. Distribuição do artigo da lei relacionado a cada um deles.
• Relacionar os direitos da mulher com a Declaração dos Direitos Humanos: o que antes era visto apenas como injustiça, passa a ser visto como violação dos direitos humanos.
• Mostrar a importância da participação da sociedade civil para as conquistas e legitimação das leis que já estão no papel.

---- TERCEIRO DIA
Temas Abordados: Empoderamento político, desenvolvimento, Empoderamento econômico, projetos locais de desenvolvimento.

- Manhã:
• Desenvolvimento: incentivar a discussão a partir de um vídeo-documentário sobre o trabalho comunitário desenvolvido por mulheres, estabelecer um diálogo entre o local e o global; entre ações individuais e comunitárias e um contexto macro.
• Necessidades básicas e estratégicas: como elas podem ser articuladas no trabalho comunitário e nas ações individuais.
• Projetos: dividir em pequenos grupos para a discussão sobre o que poderia ser feito em suas comunidades em relação à: geração de renda, saúde, educação e direito.
• Distribuição de um roteiro básico para ajudar no planejamento da ação (o que fazer, como, porque, com quem, onde?) levando em conta a sustentabilidade dos projetos. Os grupos devem apresentar um esboço do(s) projeto(s) criado(s).

- Tarde:
• Teatro Forum: dividir em dois grupos. Cada um monta uma situação de opressão em forma de peça de teatro;
• Um grupo apresenta para o outro e depois abre-se espaço para as intervenções do público.
• Avaliação da oficina.

 

NOTAS

1) "D'ÁVILA NETO, M.I., PIRES, C., ALMEIDA, A., CABRAL, C., NAZARETH, J., SOARES, M.. Mulheres fora do lugar. Hi-8 / NTSC. Rio de Janeiro. Laboratoire d'Images - EICOS/IP/UFRJ, 1999. 11 min."
2) "WALTERS, S., MANICON, LINZI (dir.). Gender in popular education. Methods for empowerment. Londres, Zed Books, 1996."
3) "Segundo Boal, como na Pedagogia do Oprimido de Paulo Freire, no teatro busca-se conhecer a realidade para transformá-la, não restando lugar para o espectador passivo. A. BOAL. Teatro do Oprimido e outras poéticas políticas. Rio de Janeiro, Bertrand, 1987."
4) "D'ÁVILA NETO, M.I. Enquete participativa com mulheres desfavorecidas e suas concepções sobre o desenvolvimento cultural. Fórum educação. n. 11, out.-dez. 1987, Rio de Janeiro, p. 63."