MEMÓRIA CULTURAL DE MULHERES

A utilização do vídeo enquanto instrumento de pesquisa teve sua pertinência confirmada no que concerne o aspecto do feedback (retorno) por parte dos entrevistados em enquetes ditas participativas.

Podemos dizer, também, que o vídeo utilizado a serviço da animação de grupos é bastante eficaz. Sua utilização em um projeto cujo objetivo é captar os diferentes aspectos de uma linguagem gestual torna-se evidente. Nosso registro fílmico seguiu, então, as considerações da antropologia visual e da vídeo-exploração, ou «autoscopia», segundo a expressão de Linard e Prax .

Convém descrever, aqui, algumas dificuldades que nos parecem de grande importância quando da montagem de um dispositivo de vídeo em uma pesquisa. Primeiramente, há duas formas de feedback com relação ao tempo decorrido: o feedback simultâneo e o diferido. Utilizamos, sempre, este último. Com efeito, «atenuamos consideravelmente o efeito de projeção, de redublagem, de eco, já que se instaura, por definição, uma distância temporal entre o momento vivido e o da "revisão", que introduz, de fato, seguidamente, o olhar de um terceiro no campo de confrontação.»

No retorno da imagem pelo vídeo podemos, também, resgatar o «não-verbal» e não somente a verbalização. Isto é particularmente importante em culturas como a nossa, na qual as mulheres que vivem no interior do país são ainda submissas a costumes tradicionais: a voz do pai, do marido, do irmão mais velho é sempre mais importante que a das mulheres.

VIDEOFEEDBACK
SIMULTÂNEO
VIDEOFEEDBACK DIFERIDO

Nos gestos de interação social, por exemplo, podemos perceber uma linguagem não-verbal impressionante. Assim, a confrontação da imagem ideal com a imagem do vídeo pode oferecer-nos informações preciosas sobre aspectos inesperados, permitindo, ao mesmo tempo, uma modificação da ação do emissor. É diferente da imagem no espelho, na qual cada um permanece mestre de sua própria imagem. O corpo é, para a câmera, uma imagem que pode reproduzir-se independentemente da vontade de seu mestre.

Essa ligação entre a linguagem gestual corporal e o tempo é observada na pesquisa A Linguagem Gestual Feminina . Nesta pesquisa, a proposta era extrair, a partir de seus gestos, a memória cultural das mulheres. Isso explica nossa preocupação em apoiar a pesquisa dos gestos sobre uma enquete a respeito da ‘memória’ cultural das mulheres brasileiras. A partir da inspiração em um questionário de Germain e Panafieu , decidimos ter uma ‘tipologia ideal’, ou seja, diferentes tipos de mulheres escolhidas segundo diferentes universos cotidianos: uma decendente de escravos, negra; uma mulher de origem indígena; uma mulher intelectual, escritora e artista; uma mulher ligada à politica militante; uma dona-de-casa, de classe média; uma empregada doméstica ou faxineira; ou, ainda, uma trabalhadora rural ; uma ‘mãe de santo’ (responsável por um ‘terreiro’, espécie de lugar santo de um tipo de rito religioso de origem africana, no Brasil). A hipótese era de que essas mulheres são portadoras de diferentes memórias culturais, em função da experiência diferente e, ao mesmo tempo, similar sob diversos aspectos, em especial naqueles que concernem os mecanismos de uma cultura patriarcal dominante.

Entrevistar as mulheres e, ao mesmo tempo, observar sua linguagem gestual permite resgatar informações sobre suas técnicas corporais e sobre o tempo, passado, que nelas se inscreve. A esse respeito, David le Breton afirma: «a memória de uma coletividade não reside somente nos mitos e lendas, nos ritos e nos arquivos escritos, ela também se increve no efêmero do gesto, nas fibras das técnicas do corpo que desenvolvem esses homens e essas mulheres.(...) Hoje é ainda possível descobrir, por meio desta ação, a memória viva que permanece inscrita nos gestos de um ancião. A memória de uma sociedade é também aquela dos gestos.»

O corpo é memória viva, e é também uma linguagem. Trata-se, aqui, de uma perspectiva que enfatiza o contexto social e cultural. A hipótese, já anunciada acima, supõe que os gestos devem ser compreendidos em função de um contexto.

(…)a memória viva permanece inscrita nos gestos de um ancião. A memória de uma sociedade é também aquela dos seus gestos. (Le Breton, 1988)

Birdwhistell insiste sobre este problema em seu livro "Kinesics et Context". Greimas, Koechlin e Kristeva também retomam o componente lingüístico do gesto, ou ainda, sua função significante. Assim diz Greimas, por exemplo: «a gesticulação natural transforma-se em gestualidade cultural e, se mantemos, por razões práticas, a expressão do gesto natural, este só se define como signo natural em razão de sua virtualidade semiótica ao mesmo tempo que se revela um elemento constitutivo de significação.»

Em um trabalho anterior sobre a participação das mulheres no desenvolvimento cultural, as sessões de grupo, por intermédio do vídeo, mostraram, de forma evidente, um tipo de clivagem entre a linguagem verbal e não verbal entre as mulheres.

Surpeendeu-nos, na sessão de feedback por meio do vídeo, que as mulheres sejam bem mais ligadas ao signo corporal que ao verbal. A dramatização de uma conversa entre patrão e empregada doméstica mostrou-nos a empregada que abaixava sua cabeça em frente a um patrão enérgico e, de forma alguma, justo. Um discurso «louco» no sentido das pesquisas do grupo de Palo Alto (Califórnia), pareceu-nos uma ocasião extremamente interessante para estudar as teorias de comunicação de Bateson, e outros, sobre os discursos ambíguos e «esquizofrênicos». Contudo, as mulheres ao verem o retorno por meio do vídeo só discutiram sobre a cabeça baixa, ou seja, o signo não verbal, corporal. O «discurso louco» foi eclipsado pelo significado de um signo corporal de submissão .

Podemos, assim, questionar o fato de as mulheres terem acesso, de forma plena, à linguagem verbal em uma sociedade forjada no sentido patriarcal. Nas classes menos favorecidas, o que vemos são preconceitos, ou reais dificuldades na educação de filhas, as quais acabam por permanecer analfabetas. Há, claramente, um acesso barrado à linguagem, no sentido verbal.

Luce Irigaray
aproxima-se desses problemas com uma visão psicanalítica extremamente lúcida: «Na falta de identidade da mulher mãe, a palavra das "filhas" é dita como mímica gestual. (...) A troca verbal torna-se impossível ou inútil. Tudo tem lugar anteriormente à intervenção da palavra.
Elas tomam a aparência do outro, antes de qualquer imagem, deixando-lhe, as suas, as quais não querem mais, por falta de representação delas próprias para venerar, contemplar, admirar, ou mesmo adorar. Esse rapto teve lugar antes de qualquer posição de amor ou de ódio. Elas foram privadas
da mediação artística, icônica, religiosa que lhes permitiriria verem-se ou admirarem-se em qualquer ideal de si mesma».

E ela diz mais adiante: «no que concerne o acesso das mulheres à linguagem e ao discurso, algumas questões devem ser feitas: por que razão seu potencial energético de linguagem está sempre em ponto de fuga, na falta de um retorno possível ao sujeito da enunciação; algumas pesquisas recentes em teorias do discurso, e também em Física, parecem poder esclarecer o ponto, até o presente, ‘cego’ do seu não-acesso ao discurso. É necessário voltar ao estudo da temporalização e sua relação com o lugar a partir do qual pode ou não pode situar-se um sujeito produtor de linguagem.»

O canadense E. Shorter , em sua longa pesquisa a respeito dos Corpos de Mulheres conduz-nos à conclusão de que a maior fonte de opressão das mulheres é seu próprio corpo, carregado de preconceitos. Parece-nos evidente que um trabalho, no qual se pode confrontar as imagens capturadas pelo vídeo com as imagens que as mulheres fazem de si mesmas, possa conduzir a uma reflexão sobre o próprio corpo, possibilitando, ao mesmo tempo, desenvolver uma nova concepção do papel da mulher.

Na pesquisa sobre Linguagem Gestual de Mulheres pudemos observar um interessante aspecto no que diz respeito às representações do trabalho pelas mulheres. A maioria delas ajudam nos campos, trabalhando na plantação. Trata-se de um trabalho duro: as mãos tornam-se cheias de calosidades. E, mesmo assim, quando pedimos a essas mulheres, nas sessões de grupo, que ‘representassem’ uma mulher, sem palavras, mas com o auxílio de seus próprios corpos, elas o fizeram, quase que exclusivamente, com trabalhos domésticos ou cuidados cotidianos do corpo, ligados à ‘beleza’ feminina. Nenhuma mulher concebeu ‘reproduzir-se’ ou ‘representar-se’ na tarefa de um trabalho classicamente não feminino. Confrontadas às imagens do vídeo, que mostram seu trabalho no campo, nas plantações, elas não ficaramm à vontade. Tudo que disseram recaía como desculpa: os homens partiram em busca de melhores oportunidades, e os que restam são preguiçosos. Elas insistiam que se tratava de um trabalho duro e, por isso, não era destinado às mulheres.

Trata-se de um aspecto que deve ser aprofundado, retomando a questão do acesso barrado a algumas expressões da linguagem gestual, mesmo que reconhecida a técnica corporal. O artesanato – ele também – mantém-se como um meio para aumentar a renda familiar. Nenhuma dessas mulheres, porém, concebe-se como artista, enquanto tece a beleza e a harmonia.

« a maior fonte de opressão das mulheres é o seu próprio corpo.»
(Shorter, 1984)

 

 

NOTAS

1) "LINARD, M., PRAX, I. Image video, image de soi. Paris, Dunod, 1994."
2) "LINARD, M., PRAX, I. Image video, image de soi. Paris, Dunod, 1994."
3) "D'ÁVILA NETO, M.I. Langage Gestuel Féminin. Paris, UNESCO, 1990."
4) "GERMAIN, C.& PANAFIEU, C. La mémoire des femmes. Paris, Sylvie Messinger, 1982."
5) "D'ÁVILA NETO, M.I. Langage Gestuel Feminin. Paris, UNESCO, 1990."
6) "LE BRETON, D., Corps et société: essais de sociologie et anthroplogie du corps. Paris, Klinscsieck, 1988."
7)
"BIRDWHISTELL, R. Kinesics and context. Philadelphia, University of Pensivania Press, 1970."
8) "GREIMAS, A.J., KRISTEVA, J. et al. Práticas e linguagens gestuais. Lisboa, Veja, 1979."
9) "GREIMAS, A.J., KRISTEVA, J. et al. Práticas e linguagens gestuais. Lisboa, Veja, 1979."
10) "IRIGARAY, L. Parler n´est jamais neutre. Paris, Minuit, 1985."
11) "SHORTER, E. Les corps des femmes. Paris, Seuil, 1984."