IDENTIDADE CULTURAL



A transição entre uma concepção clássica de desenvolvimento e modelos mais voltados para as dimensões sociais e culturais implica na consideração das realidades locais em que os projetos/políticas de desenvolvimento estão sendo implementados. Considerados não mais como apenas receptores passivos de algo que lhes é imposto, mas como atores sociais de seu próprio processo, cabe perguntar: quem são essas pessoas ? o que têm em comum, que faz delas um grupo ou uma comunidade ? quais os seus valores, necessidades e aspirações ? Ao formularmos tais questões, estamos nos perguntando pela identidade coletiva ou cultural de tais grupos, ou seja, o princípio dinâmico que surge do "pertencimento" a uma determinada cultura e que permite que nos configuremos como coletividade.

Quando inserimos o tema da identidade cultural no panorama atual de acelerada transformação social, percebemos a dificuldade de manter uma conceituação única e homogênea. Pois todo o território que um dia já nos forneceu sólidos referenciais para nos definirmos enquanto indivíduos sociais – categorias como classe social, gênero, sexualidade, etnia, raça e nacionalidade – parecem hoje se fragmentar, descentrando os sujeitos de seu eixo identitário e impedindo que façam de si uma imagem integrada e global.

Segundo autores como Stuart Hall , não nos é mais permitido nos concebermos como "sujeitos do Iluminismo", isto é, indivíduos que, ao nascer, já possuiriam uma identidade e com ela se manteriam ao longo de seu desenvolvimento. Esta identidade seria uma espécie de centro interior dotado de razão que, em sua essência, permaneceria o mesmo ao longo da existência, possibilitando ao sujeito fixar um sentido único para si mesmo.

A crescente complexidade do mundo moderno, associada à influência das pesquisas em ciências sociais, foram decisivos para se colocar em xeque tal modelo, entendendo que a estruturação desse núcleo central não é de antemão autônoma ou auto-suficiente, mas se forma na relação com os outros, que figuram como mediadores da cultura. A identidade, assim, passa a ser compreendida como um alinhamento entre nossos sentimentos subjetivos e os lugares objetivos que ocupamos na cultura. Tal concepção de identidade parece perfeitamente consonante com o enfoque do desenvolvimento dentro de uma perspectiva local ou endógena, uma vez que permite tomar o "eu coletivo" como foco, entendendo que, se o desenvolvimento é um processo de auto-transformação, é a identidade cultural que permitirá ao grupo dizer no que quer se transformar, afirmando de forma clara sua condição de ator social.

O desafio que nossa atualidade globalizada vem impor a estes modelos culturais incide diretamente no núcleo organizador da identidade, que mesmo as abordagens sociológicas insistem em manter. Pois se os referenciais tradicionais se fragmentam desvelando seu caráter não-natural e efêmero, como construir identificações estáveis ? E, ainda, se é com "fragmentos" que ainda podemos nos identificar, o que assegura que tais identificações sejam congruentes entre si, de modo a que possamos lhes conferir uma certa unidade ? Autores como Hall e Canclini nos dizem que este centro identitário unificador é ilusório, e se o sentimos como real é porque construímos para nós mesmos uma cômoda "narrativa do eu". Na verdade, à medida em que os sistemas de significação e representação cultural se multiplicam, somos confrontados com uma diversidade desconcertante e cambiante de identidades possíveis.

Identidade cultural não é, portanto, um padrão sólido que nos daria um sentido único de pertencimento – à cultura, à nação – mas antes configurações móveis, formadas e transformadas continuamente em relação às formas com que somos representados nos diferentes sistemas culturais que nos rodeiam, o que permite conceituá-la como transterritorial e multilingüística.

"A identidade [cultural] passa a ser concebida como um foco de um repertório fragmentado de minipapéis, mais do que como o núcleo de uma hipotética interioridade."

A sociedade contemporânea globalizada, ao conceber as nações como híbridos culturais, traz esta nova configuração para as identidades culturais, em que o vínculo mais forte parece ser o que é constituído em âmbito local – facilmente visto na proliferação de grupos minoritários ou em associações comunitárias – e que, no limite, pode apontar para o apagamento da própria idéia de nação ou de nacionalidade. Desvinculadas de suas territorialidades e temporalidades originais, as identidades contemporâneas parecem "flutuar livremente".

A tensão entre o global – próprio do movimento de atravessamento de fronteiras e de integração transnacional – e o local – característico dos novos vínculos coletivos – abre um espaço privilegiado para que a atualidade possa definir o que significa, hoje, falar em identidade cultural. Pois, sobretudo se considerarmos as culturas híbridas da América Latina , é na coexistência de tradição e modernidade que qualquer projeto de desenvolvimento pode ser levado adiante, o que nos remete ao seguinte desafio: como preservar as identidades culturais – e, conseqüentemente, a diversidade cultural – sem cairmos numa postura xenofóbica e ultraconservadora ?

Também podemos inserir tal problemática no jogo entre tradição e tradução, na direção da – ainda utópica – concepção de identidade cultural enunciada por Stuart Hall:

"aquelas formações de identidade que atravessam e intersectam fronteiras naturais, compostas por pessoas que (...) retêm fortes vínculos com seus lugares de origem e suas tradições, mas sem a ilusão de um retorno ao passado. Elas carregam os traços das culturas, das tradições, das linguagens e das histórias particulares pelas quais foram marcadas. A diferença é que elas não são e nunca serão unificadas no velho sentido, porque elas são, irrevogavelmente, o produto de várias histórias e culturas interconectadas" (Hall, 2000, p. 89).

São pessoas pertencentes a culturas híbridas, que ainda estão aprendendo a traduzir e negociar entre diferentes habitats culturais e que parecem configurar um novo tipo de identidade cultural, capaz de produzir um (ainda lento e gradual) descentramento do Ocidente.

NOTAS:

1) "HALL, S. A identidade cultural na pós modernidade, 4 ed. Rio de Janeiro, DP&A, 2000."
2) "BANSART, A., Cultura, ambiente, desarrollo. Caracas, Universidad Simon Bolivar/Instituto de Altos Estudos de America Latina, 1992."

3) "D'ÁVILA NETO, M.I. Os 'novos' pobres e o contrato social: receitas de desenvolvimento, igualdade e solidariedade, seus mitos, laços e utopias. Arquivos Brasileiros de Psicologia, n. 8, out.-dez. 1998, Rio de Janeiro, Imago. (Sociedade e Ecologia)."