GÊNERO e DESENVOLVIMENTO


O Laboratório de Imagens, trabalha de forma integrada às pesquisas do Programa EICOS, tem como função organizar o suporte material e técnico indispensável ao desenvolvimento e treinamento dos alunos e docentes interessados nas técnicas de vídeo aplicadas à pesquisa psicossociológica.

Este treinamento tem por objetivo inserir o pesquisador no universo do trabalho com vídeo, tornando-o familiar às técnicas e instrumentos para que ele possa atuar nas diferentes fases de gravação e produção de um documento visual.

Um dos desafios de nosso trabalho está em conjugar a tecnologia e as exigências do trabalho em vídeo (gravação, roteirização, e edição, entre outras), de forma favorável às também exigências de um de pesquisa em ciências humanas e sociais. Concordamos, com as idéias de Rouch e France tendo observado, na prática do nosso trabalho desde 1986, iniciado com o filme "Maria Maria", que o olhar atento e sensível do pesquisador às cenas e situações a serem gravadas, acrescentam à técnica, não só espontaneidade ao captar detalhes que escapariam à uma equipe puramente técnica, mas principalmente, autenticidade às imagens gravadas. Além disso, para que o trabalho com o feedback possa se realizar é necessário que o pesquisador assuma realmente o papel de diretor, e quanto mais ele for capaz de compreender as limitações e possibilidades do vídeo, mais proveito poderá obter em seu trabalho.

O Laboratório de Imagens EICOS/UFRJ vem desenvolvendo suas pesquisas tendo como premissas, as seguintes idéias que apontam para a importância do vídeo como instrumento de pesquisa:

1. Utilização enquanto modo alternativo ou complementar de registro de informações: embora, nessa modalidade, não se aproveitem todas as potencialidades do vídeo, ele apresenta inúmeras vantagens sobre as técnicas que empregam apenas o registro do comportamento verbal, uma vez que possibilita trabalhar com a dimensão corporal - de difícil apreensão com outras tecnologias. A dimensão não-verbal representa um universo riquíssimo a ser explorado - por si só- ou em conjugação com os aspectos verbais, tanto no âmbito da pesquisa como na preservação da memória dos grupos sociais.

A imagem é capaz de mostrar mais do que uma descrição, ela proporciona a percepção de rostos, olhares, formas texturas, planos, cores e volumes, que formam também o mundo, pois são manifestações visíveis das culturas.

2. Utilização como forma de acesso a grupos sociais específicos: tanto na pesquisa como na documentação, há casos em que o registro da dimensão não-verbal é o único acesso a certos traços dos grupos sociais que se quer conhecer, sobretudo quando o domínio do código verbal é muito assimétrico entre pesquisador(es) e pesquisado(s). A questão do código é ressaltada por D’Avila Neto em relação à pesquisa que realizou com mulheres de meios desfavorecidos, no Brasil. Para a autora, o menor domínio - em relação aos pesquisadores (de nível universitário) - do uso da palavra, encontrado entre as mulheres com que trabalhou impediria uma comunicação mais completa.

"No nosso projeto específico, nos mobilizou a questão do código: poucas entre elas sabiam ler e escrever, e certamente nenhuma, ou quase nenhuma, saberia nos responder a uma questão complexa que trataria da contribuição da mulher para o desenvolvimento cultural. Nossa formulação do tema, mesmo a mais adequada possível, faria aparecer nossa noção de cultura, através das nossas próprias aspirações e necessidades. Em um país onde se misturam tantos elementos culturais, corremos o risco de não perceber certos traços de culturas recalcadas pelos mecanismos de dominação e de colonização intensas de que sofremos."

3. Utilização enquanto forma de "feedback": embora pouco empregado em pesquisas sociológicas, sua contribuição na pesquisa do tipo participativa mostra-se promissora. Na Psicologia, as contribuições com o emprego do feedback são mais facilmente identificadas, principalmente com finalidades terapêuticas. O uso na área da Psicossociologia vem se desenvolvendo nos últimos dez anos. No Brasil, assinalam-se os trabalhos de D’Avila Neto , responsável pela criação e implantação do Laboratório de Imagens e pelo desenvolvimento do projeto do Banco de Imagens.

A riqueza do vídeo em enquetes participativas - como feedback, em pesquisas que utilizam técnicas de animação de grupo e como forma - muitas vezes, a única - de preservar a memória de grupos sociais, constitui elemento extremamente importante em programas que visam trabalhar com a dimensão sócio-cultural do desenvolvimento.

4. Utilização como recurso para trabalhos sobre desenvolvimento: o vídeo se mostra também como um poderoso recurso em programas que visam trabalhar com a dimensão sócio-cultural do desenvolvimento e, fundamentalmente, na dimensão técnica do processo funciona como instrumento privilegiado na produção de estratégias de interação didática à distância. Nesse caso, a técnica pode atuar como suporte na elaboração de video-programas de capacitação, teleconferências e outras modalidades de atividades de hipermidia, mediante o aproveitamento das imagens, associadas à infra-estrutura teleinformacional disponível.