ESTUDO de CASOS


Apresentaremos nesta seção uma breve descrição dos principais trabalhos realizados e registrados em vídeo. O quadro a seguir organiza, de uma forma esquemática ,esses trabalhos quanto a diferentes aspectos, tais como os objetivos principais, de onde partiu a demanda e a quem se dirigiam os trabalhos. A metodologia de pesquisa utilizada em campo está indicada nas técnicas. Sendo trabalhos que, posteriormente, deveriam constituir um filme, os levantamentos de dados para a pesquisa e para a roteirização de cada experiência se mesclam no que chamamos de pré-roteiro ou projeto de registro fílmico. Em feedback visual indicamos a utilização feita a partir das imagens registradas, tanto no que se refere à técnica de dinâmica de grupo ou videofeedback, quanto à apresentação do filme , editado como forma de sensibilização e troca de experiências.

Os filmes Sinuelo (1985) e Maria Maria (1986), foram trabalhos feitos a partir de uma demanda da UNESCO e são experiências que deram origem aos trabalhos posteriores com vídeo. A técnica de videofeedback foi pela primeira vez utilizada durante os encontros com o grupo de empregadas domésticas da cidade do Rio de Janeiro, tendo sido documentada no filme Maria Maria, e descrita em relatório para a Unesco.

ETAPAS PARA CONSTRUÇÃO DE UM ARGUMENTO PARA ROTEIRO/OU PRÉ-ROTEIRO, PARA REALIZAÇÃO DE MATERIAL EM VÍDEO, A PARTIR DE UMA PESQUISA DE CAMPO

As etapas que se seguem referem-se ao vídeo, realizado a título de documentário de pesquisa, numa cidade do interior do Brasil - Coronel Xavier Chaves, em Minas Gerais, em 2001. Há onze anos, realizamos, nessa mesma cidade, uma pesquisa de tipo participativo, sobre a memória cultural e linguagem gestual de mulheres artesãs. Este é um exemplo de como construímos a trajetória do nosso trabalho, visando auxiliar outros pesquisadores que se interessam em documentar seus próprios trabalhos.

1ª etapa:

2ª etapa:


Associação artesãs-mulheres bordado -> PRE-TEXTO -> Para indicar o Processo de Desenvolvimento e Participação das Comunidades.

A Associação de Bordadeiras e seu movimento participativo na comunidade funcionam como Pre-texto para se indicar o que se pretende com o vídeo, notadamente no que diz respeito à discussão sobre o desenvolvimento.
Esse é um momento chave para a discussão com as equipes de campo e com os pesquisadores. É preciso preparar um roteiro de filmagem que contenha os diferentes elementos apresentados nas etapas.

3ª etapa:

O pesquisador deve estar atento, nas entrevistas, aos elementos "invisíveis" e aos relatos da cultura local, verificando como a ação das lideranças comunitárias pode gerar novas ações e, ao mesmo tempo, ao surgimento de novos elementos.

4ª etapa:

Para se trabalhar com o Imaginário Cultural das Questões Centrais, deve-se levar em conta:

• a representação da questão tanto para os entrevistados quanto para os pesquisadores;
•a trajetória fornecida pelas fontes históricas sobre a questão.

É necessária uma precaução especial, pois o pesquisador deve exercer sua capacidade de síntese, enfocando aspectos que são diretamente ligados à questão que está examinando.

O quadro anterior sobre o Imaginário do Desenvolvimento procura dar uma idéia panorâmica sobre questões do desenvolvimento, que ficam como perguntas subjacentes. Traça um paralelo entre a missão da evangelização de outrora - converter os autóctones em nome da fé - e a missão da cooperação -converter ou transformar em nome da razão e da tecnologia. Focaliza as mulheres, seu acesso negado à educação e, por uma proibição, aos teares, no século XVIII, pelo Reino de Portugal, do qual éramos uma colônia. A proibição tinha a preocupação de evitar que o Brasil continuasse a produzir tecidos de excelente qualidade e não se dirigia especificamente às mulheres. A atividade de tecer/bordar entre nós, entretanto, permanece como característica de mulheres.

Sugerimos que as principais idéias a serem pesquisadas e/ou tratadas sejam colocadas em uma coluna e as imagens e entrevistas correspondentes em outras colunas.

Pré Roteiro para Vídeo Assunto:
Imaginário Pessoal Desenvolvimento/Aspectos da Trajetória Pessoal dos Entrevistados em relação ao tema do trabalho
Entrevistas com Lideranças (listar os alvos principais)
Entrevistas com População Local (listar aqui todas as entrevistas )
Imaginário Cultural do Desenvolvimento/
Aspectos da Cultural Local
Entrevistas com Lideranças (pode-se aprofundar, trabalhando-se sobre os alvos iniciais)
Imagens da Cultura Local
(festas, danças...)
(consultar o calendário local)

5ª etapa:



6ª etapa:

Vamos dar a seguir um exemplo de diferentes trechos selecionados nas entrevistas, procurando identificar os elementos descritos nas etapas.

O pesquisador deve levar em consideração que ele tem depoimentos, tanto em entrevistas como em imagens, sobre os mesmos elementos. Tanto as imagens quanto as entrevistas servem para demonstrar os diferentes aspectos da questão, seja para reforçá-los e/ou indicar contrastes ou novas questões.

O pesquisador deve ter feito um trabalho prévio de decupagem de todo o material filmado, com time code.

Exemplo de seleção de trechos filmados com entrevistas e imagens locais para o vîdeo das artesãs

SEQ. 1 - IMAGENS DO LOCAL
(ENTRA FALA DA LIDER LOCAL)

SEQ. 2 - MAPA
(LOCUÇÃO EXPLICATIVA SOBRE O LOCAL)

SEQ. 3 - LIDER LOCAL EXPLICA ORIGEM DA TECNICA DE BORDADO

SEQ. 4 – LIDER LOCAL FALA DA ASSOCIAÇÃO E DO TRABALHO

SEQ. 5 – ARTESÃS LOCAIS EXPLICAM A TÉCNICA


SEQ. 6 - LIDER LOCAL INDICA A
PARTICIPAÇÃO DA COMUNIDADE LOCAL

SEQ. 7 - ARTESÃ LOCAL REFERE-SE A SUA PROPRIA VISÃO DE PARTICIPAÇÃO

SEQ. 8 - LIDER LOCAL CONTA A SUA TRAJETORIA PESSOAL, REFLETINDO SUA ESCOLHA COMUNITARIA


SEQ. 9 - ENTREVISTA COM ARTESÃ LOCAL
(JA ENTREV ISTADA EM PESQUISA ANTERIOR)

SEQ. 10 - LIDER LOCAL FALA DE MUDANÇA

SEQ. 11 - ARTESÃ FALA DE COOPERAÇÃO E MUDANÇA


SEQ.12 - ARTESÃ MAIS ANTIGA FALA DE RENOVAÇÃO E MUDANÇA

SEQ. 13 - LIDER LOCAL FALA DE CONSCIENTIZAÇÃO DAS MULHERES


SEQ. 14 - OUTRA LIDER LOCAL FALA DA PARTICIPAÇÃO DAS PESSOAS MAIS SIMPLES


SEQ. 15 - ENTREVISTA DE MULHER LAVRADORA

SEQ. 16 - LIDER LOCAL FALANDO DO QUOTIDIANO DAS MULHERES NA CIDADE E DO TRABALHO

SEQ. 17 - MULHER LAVRADORA

SEQ. 18- 2ª LIDER LOCAL FALANDO DE SEU TRABALHO (COORDENA UM CORAL)


SEQ. 19- IMAGENS DE CORAL ENSAIANDO NA IGREJA

SEQ. 20 - LIDER LOCAL FALA DAS MULHERES INDIGENAS E DA HISTORIA DA REGIÃO, RETOMANDO O SEC.XVIII
(INSERT: GRAVURAS DO SECULO XVIII SOBRE ASPECTOS E HABITOS DA EPOCA)



SEQ. 21- LIDER LOCAL FALA DO DESENVOLVIMENTO EM SUA ATUALIDADE

SEQ. 22 - ENTREVISTA COM ARTESÃ LOCAL Falando sobre a importância da LIDER

SEQ. 23 - LIDER LOCAL DANDO SUA IDEIA SOBRE A TRAJETORIA DO PAIS, FAZENDO UM PARALELO COM O TRABALHO DAS MULHERES EM GERAL

SEQ. 24 - LIDER LOCAL ENFEITANDO
JANELA COM AS CORES DA BANDEIRA
NACIONAL PARA UMA PROCISSÃO

SEQ. 25- IMAGENS MULHERES, SEGUIDA DE LOCUÇÃO COM UMA POESIA DE PROTESTO DA LIDER LOCAL

  Imagens locais, apresentando também a temática

O texto de locução não deve ser longo, mas suficiente para que o vídeo seja compreensível

Imagens dos bordados da região

INTRODUÇÃO da AÇÃO DO AGENTE DE DESENVOLVIMENTO
DANDO-SE ENFASE À TRANSMISSÃO PARTICIPATIVA DA TÉCNICA


IMAGENS DA SEQUÊNCIA DO BORDADO em DIFERENTES
ETAPAS


PODEM SER UTILIZADAS IMAGENS COM MÃOS BORDANDO e, AO MESMO TEMPO, DANDO O SENTIDO de UNIÃO= DAR AS MÃOS, que APARECE NA FALA DA LÍDER LOCAL

Identidade cultural, costumes e
mulheres da região; identifica-se na fala da líder local elementos para traçar a idéia de desenvolvimento

Depoimento de interesse para saber o que mudou; podem ser usadas imagens antigas que vão contrastar com o que ela estiver descrevendo

São trechos que vão indicar mudanças de uma geração para outra e também refletem a cooperação e participação comunitárias



Indica-se o aspecto crítico da participação, isto é, o processo de conscientização

Isso faz aparecer a fala de um novo agente

Entrevista com lavradora
reencontrada; o que mudou
para ela; seus sonhos e sua vida

IMAGENS do QUOTIDIANO das MULHERES LOCAIS

O que fala=o que faz= o que e quanto participa

Idéia da participação de novos agentes locais=efeito multiplicador "palavras-chaves" do universo dos mais desfavorecidos

TransmissãoÆ Memória
cultural
Surgimento da questão da colonização e desenvolvimento;

Aparecem as idéias de
o GLOBALIZAÇÃO
o COLONIZAÇÃO
o DESENVOLVIMENTO DURÁVEL
E sua RELATIVIDADE NA
DIMENSÃO TEMPORAL

Reaparece a idéia do agente de desenvolvimento para a continuidade do trabalho

São diversos os elementos que aparecem aqui; devem ser tomados os mais universais, permitindo generalizações.
Nas últimas imagens, dá-se a idéia de passagem do tempo;

A imagem da líder escolhida sai de uma casa antiga, dando a idéia de passado, que ainda persiste, mas que está sendo superado =olhar para fora


A poesia trata de questões nacionais. Os textos finais devem ter uma escolha criteriosa, servindo para reforçar a idéia dos contrastes e indagações seguidas sugeridas pelo desenvolvimento


• Para se fazer essa seleção, deve-se previamente realizar o "time code" das fitas gravadas, o que permite ter uma visão de conjunto das diferentes falas;
• Ao serem escolhidas as falas, são indicados os "time codes", permitindo identificá-las nos lugares corretos nas fitas para a edição;
• A música é um elemento importante para o objetivo do trabalho. A sonorização de um vídeo de pesquisa deve também atender a isso. Músicas que transmitem sentimentos excessivos, seja de alegria ou tristeza, muito rápidas ou muito lentas, podem comprometer o próprio ritmo do trabalho e a transmissão das idéias;
• As entrevistas devem fixar bem as expressões dos entrevistados e lhes "permitir" silêncios, "pausas gestuais". A iluminação e a sonorização das mesmas deve ser um trabalho preliminar. Tenha bom senso em não interromper um relato , muitas vezes carregado de emoção, para corrigir, por exemplo, uma falha de iluminação. A boa captura de som, entretanto, é indispensável.
• Esse exemplo é uma forma de construir; todo pesquisador pode e deve exercitar a sua própria forma de construção.