EMANCIPAÇÃO e CONCIENTIZAÇÃO


No Brasil, temos uma tradição dos anos 60, proveniente sobretudo dos trabalhos de intelectuais de esquerda preocupados com a educação popular, tais como Paulo Freire, brasileiro que influenciou toda uma geração de cientistas sociais. Estes últimos, sempre preocupados com as classes desfavorecidas, dedicaram-se aos estudos com comunidades pobres, procurando desenvolver métodos para a conscientização – social e política– dessas mesmas comunidades.

A Psicologia Social – distinta da psicologia social mais clássica, anglo saxã/norte-americana - prefere chamar-se psicologia social comunitária. Alguns autores estabelecerão, ainda, uma diferença entre a psicologia social comunitária norte-americana e a psicologia social comunitária latino-americana . A primeira estaria preocupada com a adaptação ao sistema (capitalismo) por parte das comunidades desfavorecidas, enquanto a segunda estaria mais preocupada com a conscientização e transformação das pessoas para que estas assumam seus próprios direitos políticos. É importante perceber que a primeira tendência alia-se a uma certa ideologia do desenvolvimento comunitário, efetivamente importada dos Estados Unidos, nos anos 60, por meio das agências de desenvolvimento - tais como OEA, BID, dentre outros -, as quais se interessavam pelas comunidades desfavorecidas da América Latina. É como crítica a essa primeira tendência que, na América Latina, tomará impulso a segunda tendência da psicologia social, extremamente influenciada pela «educação popular» de Paulo Freire.

Como indica Maritza Montero , eminente psicóloga social da Venezuela:

(São) problemas urgentes da sociedade latino-americana para os quais uma prática centrada na adoção acrítica de modelos importados apresentava respostas que não eram nem adequadas nem suficientes.

Na maior parte dos relatos de psicólogos sociais latino-americanos, Freire e Falls Borda (este último colombiano) surgem como «dois intelectuais que deram um impulso à busca de novos caminhos para os psicólogos interessados no conhecimento concreto da realidade social e de uma ação transformadora, por meio da ação consciente dos indivíduos de uma comunidade» . É, antes de tudo, importante considerar toda a trajetória social, econômica e política sofrida pela América Latina nos anos 60 e 70, quando passou por fortes movimentos populares, inspirados, algumas vezes, pela Igreja menos conservadora e pelas duras repressões promovidas pelas ditaduras militares.

Veremos então nos anos 80, no Brasil e na América Latina, um crescimento, quase uma verdadeira publicidade, das pesquisas do tipo pesquisa-ação, ou mesmo das pesquisas ditas participativas.

Maritza Montero reconhece alguns estágios na adoção deste método, na América Latina, pelos psicólogos sociais. Ela fala de


É fundamental sublinhar que as pesquisas-ação - ou participativas - encontram não somente a ‘ação’, no campo, através de um dispositivo de pesquisa, mas uma nova concepção de pesquisa com interesse pelo discurso/linguagem, pela mudança/transformação e – não se pode negar – com uma preocupação política subjacente com os grupos ou comunidades desfavorecidas, com os oprimidos, para guardarmos a expressão consagrada por Paulo Freire, cuja obra, Pedagogia do Oprimido , obteve enorme reconhecimento.

É justamente o viés político da pesquisa-ação, na América Latina, inclusive no Brasil, que traz problemas. Para continuar como pesquisadores, muitos obrigavam-se a encontrar financiamentos fora dos organismos de pesquisa acadêmicos, partindo em direção aos organismos internacionais, cuja agenda sempre enfatizou os problemas sociais ; este tipo de apoio, de certa forma, permitia soluções mais imediatas, sem o academicismo clássico que, podemos imaginar, era um tanto onipresente, e se fazia presente também, é claro, em nossas universidades brasileiras. Isto favoreceu um aumento das pesquisas-ação e participativas em múltiplas ações de desenvolvimento, realizadas com o concurso dos organismos internacionais mundo afora. Hoje, gozando de maior aceitação pelo academicismo latino-americano do que se podia verificar nos anos 80, a pesquisa participativa pode mesmo ser considerada um dos avatares de toda a psicologia social comunitária sendo, para alguns, a única possibilidade de fazer uma psicologia social transformadora, emancipatória.

A pesquisa ação enfatiza as contradições do poder existentes entre nós, ou ela se resume a «dar poder» àqueles que não o possuem pelo exercício de uma conscientização sobre os direitos civis/humanos, dentre outros ? Embora essa conscientização seja de grande importância, em que medida ela se configura como uma pesquisa que percebe, por exemplo, as representações, por vezes contraditórias, que a identidade de uma cultura híbrida propõe?


Notas explicativas
1) "Guareschi assinala que o termo conscientização foi utilizado logo após os primeiros trabalhos de Paulo Freire para - entre outras coisas - favorecer as condições de tradução para outras línguas. O termo que o próprio Freire introduziu foi "conscienciação", ou seja, uma tentativa de religar a 'ação'
2) "Preocupada com a adaptação ao sistema (capitalismo) por parte das comunidades desfavorecidas."
3) "Preocupada com a conscientização e transformação das pessoas para que estas assumam seus próprios direitos políticos."
4) "MONTERO, M. Construcción, desconstrucción y crítica: teoría y sentido de la psicologia social comunitaria en America Latina, in R.H. CAMPOS, P. GUARESCHI, (dir.). Paradigmas em psicologia social. Rio de janeiro, Vozes, 2000."
5) "LANE, S., in R.H. FREITAS, P. GUARESCHI, (dir.). Paradigmas em psicologia social: a perspectiva latinoamericana. Petrópolis, Vozes, 2000, p. 60."
6) Nota ref = "FREIRE, P. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1968."