ECOLOGIA SOCIAL

As pesquisas em ciências humanas e sociais têm hoje um importante papel no planejamento e elaboração de políticas de desenvolvimento sustentável. Seus resultados possibilitam um conhecimento maior das relações de diferentes grupos humanos e culturas com o seu meio ambiente.

Estes resultados apontam para as necessidades e aspirações de cada comunidade enfocada, as quais, dentro de uma perspectiva de desenvolvimento local, são responsáveis pela promoção da participação comunitária, fator primordial de sucesso de qualquer projeto de desenvolvimento. A ecologia social é uma das disciplinas deste conjunto de pesquisas, caracterizando a abordagem segundo a qual trabalha o Programa EICOS.


Para que se possa compreender o que chamamos de ecologia social é preciso saber que esta é um área de conhecimento e pesquisa que vem se constituindo nas últimas décadas tendo como influências principais a ecologia humana, a psicologia social, a sociologia e a antropologia.

Em termos amplos, podemos dizer que a ecologia social é o estudo dos grupos humanos em interação com o meio em que vivem, sendo esta interação determinante da identidade e das formas de atuação desses grupos humanos no meio. Logo, interessam-lhe os estudos de comunidades, populações e grupamentos humanos levando-se em consideração, principalmente, a dimensão cultural como organizadora da dinâmica destes grupos. Esta dinâmica compõe-se, na verdade, da avaliação de um conjunto no qual se verificam aspectos como: organização social, mobilidade, manifestações culturais (religião, arte) e sua relação com características específicas do ambiente físico onde se encontram. Com isso, estamos enfatizando a importância dada à dimensão cultural nos estudos de ecologia social o que a diferencia da chamada ecologia humana, a despeito de apresentarem uma origem comum.

Devemos observar, que as ambas têm como referência os estudos iniciados na década de 1920, cujo objeto encontra-se situado na interface da natureza e da sociedade, no que tange as sociedades humanas e seu comportamento no espaço em que vivem.

Nesse período, um grupo de sociólogos funda a Escola de Chicago nos EUA, desenvolvendo estudos de sociologia urbana, que irão aproximar a ecologia da sociologia. O que marca esta aproximação é a transposição de conceitos da ecologia para o campo da sociologia. Os trabalhos do grupo de Chicago inauguram uma nova metodologia de pesquisa em sociologia, a qual tem como tese principal considerar a cidade como um "habitat natural" do homem. Esta consideração se torna, particularmente, relevante dentro do contexto econômico e social da época. A industrialização crescente fez com que a cidade de Chicago representasse um excelente laboratório de pesquisas em torno do tema da relação e da organização social do homem, em um meio ambiente por ele construído, artificial, e, portanto, produto da cultura humana. As pesquisas empreendidas por este grupo americano, influenciaram, de forma marcante, as gerações seguintes por pelo menos 40 anos. Os estudos em ecologia humana que prosseguiram, no entanto, viram-se marcados pela discussão entre tendências biologistas e culturalistas. Esta discussão se baseia numa importante crítica que se refere à utilização dos conceitos de ecologia nos trabalhos em ecologia humana. Faz-se necessário ressaltar a diferenciação que a dimensão cultural implica, quando o grupo em questão é o grupo humano. Transpor termos de uma ciência natural, como a ecologia, às ciências humanas pode ter como conseqüência o empobrecimento das análises que se seguem e, ao mesmo tempo, uma deturpação do sentido original do termo. De acordo com Pascal Acot, por um lado os homens constituem uma espécie biológica cuja natureza é ser marcada por culturas e, por outro, eles transformam a natureza que os cerca a fim de satisfazerem suas necessidades biológicas e sociais.

A controvérsia acima deu origem a diversas ramificações nos estudos de ecologia humana, os quais dividiram-se segundo suas tendência teóricas, Podemos dizer que a ecologia social é uma dessas vertentes, tendo como princípio que o meio ambiente é, ao mesmo tempo, produto das atividades humanas no meio e agente transformador destas atividades.

As pesquisas desenvolvidas numa abordagem de ecologia social consistem, ao mesmo tempo, em suporte teórico e meios de obter resultados que favoreçam ações voltadas para a sustententabilidade. Procuram também apontar tendências e conhecimentos capazes de ajudar e apoiar iniciativas de desenvolvimento sustentável nas quais a conduta humana é o foco do trabalho.

Dentre as preocupações de uma ecologia social que se pretenda inteira, integrando homem e meio ambiente, deve-se propor, como ponto principal, uma educação igualmente por inteiro, respeitando os processos de desenvolvimento endógeno e a cultura local. Esses aspectos devem ser percebidos como processos continuamente em mudança, característica da própria dinâmica cultural.

(Maciel, 1998)

Notas

1) "Área de conhecimento e pesquisa que vem se constituindo nas últimas décadas tendo como influências principais a ecologia humana, a psicologia social, a sociologia e a antropologia."
2) "ACOT, P. História da ecologia. Rio de Janeiro, Campus, 1990."