DESENVOLVIMENTO e SUSTENTABILIDADE

Como as sociedades podem modelar seu desenvolvimento de maneira a preservar as pré-condições para as futuras gerações? Assim pode ser formulada a questão de fundo das investigações e ações na direção do DesenvolvimentoSustentável que, desde a década de 70, vem ocupando o cenário das discussões econômicas, políticas e sociais.

De fato, a noção então vigente de Desenvolvimento – chamada de Desenvolvimento Clássico – tinha como premissa a equivalência entre desenvolvimento e crescimento econômico, na suposição de que tal padrão – linear, contínuo e harmônico – seria igualmente acessível a todas as sociedades, nas quais se alinhariam num mesmo eixo tendencial.

Os conceitos de desenvolvido e subdesenvolvido nasceram como polos desse eixo, que apontava para uma maneira única e homogênea de modernização a ser seguida por todas as sociedades. O conceito clássico de Desenvolvimento apoiava-se, assim, em
2 grandes mitos : o mito da sociedade industrializada, responsável pela idéia de que seria este o objetivo de todas as sociedades, e o mito econômico e tecnocrático, essencialmente redutor na medida em que remetia toda e qualquer análise às teorias economicistas vigentes.

A insuficiência de tais modelos em dar conta das desigualdades e da pobreza crescente, além da percepção de que, numa sociedade globalizada, os benefícios e prejuízos do desenvolvimento – e também do subdesenvolvimento – serão partilhados por todos, levou à necessidade de se conjugar a dimensão econômica com outros aspectos capazes de enfocar a temática do desenvolvimento numa perspectiva complexa.

Na busca deste "novo paradigma", o que se destaca é a necessidade de uma teoria integrada, onde o desenvolvimento é visto como um processo social centrado, ao mesmo tempo no homem como um todo e em todos os homens. É neste cenário que surge o conceito de Desenvolvimento Sustentável como tentativa de conjugar a dimensão individual e contratual, na busca de um crescimento com eqüidade ; e também o de Desenvolvimento Endógeno, voltado para o desenvolvimento de comunidades a partir do respeito a suas tradições, culturas etc.

Parece evidente, portanto, que o tema do desenvolvimento, ao pressupor, hoje, a dimensão de sustentabilidade, engaja necessariamente o tema da participação, substituindo as estratégias centralizadoras, impostas "de cima para baixo", por outras do tipo "de baixo para cima", nas quais se fortalecem as capacidades das comunidades para assumir seu papel nos processos de planejamento e tomada de decisão. Valoriza-se, assim, o saber intrínseco a essas sociedades, de modo que cada grupo participe e seja responsável por seu processo de desenvolvimento e que, na medida em que com ele se identifique, também possa dele se apropriar.

Nesse aspecto, a pesquisa psicossocial pode igualmente contribuir, disponibilizando um conjunto de estratégias metodológicas cuja base é a dimensão participativa. A pesquisa assim denominada é indissociável da ação que ela implica e inclui um aspecto de intervenção/capacitação, cujo objetivo último é a transformação social. Nesses aspecto, rompe-se com a neutralidade positivista, assumindo-se que a inserção do pesquisador é fonte de modificação da situação original e que ele próprio se modifica no processo. Quando se acrescenta a perspectiva de feedback (retorno) dos resultados da pesquisa para os sujeitos, depreende-se que o conhecimento se faz na parceria entre pesquisador e comunidade, sendo ambos atores do processo de construção e transformação social da realidade.

É decisivo atentar para o fato de que, no contexto da sociedade globalizada contemporânea, a valorização do conhecimento comunitário/local não implica em isolacionismo deste nível de conhecimento ou ação. Ao contrário, o desafio consiste hoje em ser capaz de integrar as tradições locais com os elementos novos, desenhando estratégias capazes de potencializar as interações e amenizar os conflitos. O jogo entre os níveis local e global também coloca questões referentes à identidade cultural: como preservar tais identidades sem, necessariamente, rejeitar radicalmente o novo ? E mais, o contexto plural, que as diferentes localidades configuram, demandam uma atenção à diversidade que deve ser conjugada ao aspecto mais global.

Assim, fica clara a complexidade que o tema envolve: não se trata apenas de desenhar diferentes estratégias locais e justapô-las, mas de conjugá-las entre si, bem como articular os níveis local, regional, nacional e transacional, entendendo que, embora formuladas localmente, tais estratégias integram uma rede ampla e dinâmica de relações.

Isto coloca em cena, prioritariamente, a necessidade de se formularem programas para esse fim, centrados no objetivo maior de harmonizar as políticas públicas com as ações dos cidadãos.

O meio ambiente não pode ser encarado como um dado isolado, mas sim como um dado da cultura de uma comunidade, isto é, como um processo de interação entre o sociocultural, gerado pelo homem, e a natureza;

Não são possíveis ações ditas de desenvolvimento, sejam de preservação ou modificações sobre o meio ambiente, dissociadas do homem que a habita e, por conseguinte, de sua dinâmica cultural.

MACIEL, T & D’’Avila, M. I. In: Desenvolvimento Social, Desafios e Estratégias. (1995, p. 246)


Notas de Referências
1)"MORIN, E. As grandes questões do nosso tempo, 4. ed. Lisboa, Notícias, 1997."
2) "D'ÁVILA NETO, M.I. Os 'novos' pobres e o contrato social: receitas de desenvolvimento, igualdade e solidariedade, seus mitos, laços e utopias. Arquivos Brasileiros de Psicologia, n. 8, out.-dez. 1998, Rio de Janeiro, Imago. (Sociedade e Ecologia)."