ARTESÃS
Renda de Abrolhos
A cidade de Coronel Xavier Chaves, com cerca de 3.000 habitantes, encontra-se no centro da região histórica do estado de Minas Gerais, onde se desenrolou a Inconfidência Mineira (1789), importante movimento político da história brasileira na época da colonização e exploração do ouro.

Localiza-se apenas a alguns quilômetros das cidades de Tiradentes – município ao qual já pertenceu, de São João Del Rei e de outras cidades que também foram palco da história, cultura e arte barroca brasileiras. Coronel Xavier Chaves vem descobrindo e buscando desenvolver sua vocação turística. Marcada pela economia agropecuária, a região é rica em minérios de ferro, e sua tranqüilidade só é quebrada quando o trem, com centenas de vagões, passa por ela, ao longo de suas montanhas, levando minérios para o porto de Sepetiba, no Rio de Janeiro.

cidade de Coronel Xavier Chaves

Na região destaca-se o trabalho das mulheres artesãs, que produzem trabalhos manuais com a renda de abrolhos, e cuja Associação - Associação das Mulheres Artesãs de Coronel Xavier Chaves – AMARCHA - também desponta como um ótimo exemplo de participação da comunidade em projetos de desenvolvimento. Com seus 18 anos de existência, a Associação tem um papel central no desenvolvimento local. Ela representa uma continuidade da tradição e do artesanato da cidade. Cerca de 400 artesãs, a grande maioria delas trabalhando nas lavouras, já passaram pela associação e aprenderam a fazer o abrolhos. Com isso criou-se a possibilidade de trabalho e remuneração para as mulheres, havendo, conseqüentemente, um incremento da renda familiar, além de uma melhora da auto- estima das artesãs – por fazer um trabalho que é valorizado e que hoje ganha fama nacional, com reportagens, cada vez mais freqüentes, na mídia.

Neste contexto, as iniciativas locais mostram-se de extrema importância. A mobilização da população e sua articulação com as comunidades de cidades vizinhas vem se traduzindo em ganhos para toda a região. Através de projetos como a Trilha dos Inconfidentes, por exemplo, há um incremento do turismo e, ao mesmo tempo, um resgate cultural e histórico, inclusive, pela própria população local – que pode então vislumbrar a sua própria história e a história da cidade como fundamentais para a história de todo o país. Com isso, revigora-se a tradição oral e outros aspectos culturais da região. É o que, formalmente, pode-se chamar Turismo Sustentável, uma "indústria" que não polui e que tem relações diretas com o desenvolvimento local – almejado por todas as agendas de órgãos internacionais.
A pesquisa e o filme "As bordadeiras", realizados no ano de 2001, documentam a evolução da associação de artesãs locais e seus agentes de desenvolvimento, objetos de uma pesquisa anterior realizada no ano 1990 pela equipe do Laboratório de Imagens. Esta comunidade foi escolhida na época em parte por se tratar de uma região tradicional, em termos de hábitos e costumes e, por outro lado, por ser uma bem sucedida associação composta somente por mulheres.

Dessa forma, a comunidade em questão foi contactada para um estudo, registrado em mais de 11 horas de vídeo sobre a linguagem gestual feminina, documentado em relatório a pedido da Unesco , constituindo-se uma experiência de utilização do vídeo como metodologia de pesquisa. Para este estudo os registros fílmicos serviram a dois propósitos: registrar aspectos sociais e culturais locais, dentro de uma concepção de antropologia visual, e utilizar a técnica de videofeedback, com o grupo de artesãs, com a finalidade de trabalhar a linguagem gestual. O foco incidiu sobre o estudo das técnicas corporais como forma de atingir a memória cultural de mulheres, através da linguagem corporal.

LINGUAGEM E REPRESENTAÇÃO DE MULHERES NO MEIO RURAL BRASILEIRO

O problema de uma pesquisa sobre linguagem gestual de mulheres é conservar sua unidade com o contexto sócio-cultural no qual ela se origina. Isto nos lembra que o relato das mulheres mais velhas é o melhor meio de capturar este contexto. Um longo questionário abordando diversos temas foi aplicado a algumas mulheres da região estudada. Estas entrevistas foram também registradas em vídeo, e são parte do Banco de Imagens do Laboratório de Imagens. Numa ação paralela, apresentamos um registro fílmico da linguagem gestual das mulheres da região: no trabalho, em casa ou no campo, nos momentos de trabalho e lazer, ao longo das obrigações familiares ou religiosas. O objetivo de nossa pesquisa foi discutir o registro fílmico das técnicas corporais, materiais e rituais entre aquelas mulheres brasileiras, considerando a representação do corpo e da linguagem gestual compreendida em seus relatos.

Como reunir as mulheres para atingir os objetivos da pesquisa ? Uma associação de mulheres artesãs nos pareceu o lugar ideal . Foi assim que conduzimos nosso trabalho nesta associação de artesãs, começando por examinar uma técnica comum a todas : uma técnica de bordado típica, muito antiga, traduzindo uma ação corporal/gestual para produzir um objeto estético, ao mesmo tempo que utilitário e belo.

Etapas da Pesquisa:
1. Enquete sobre a memória cultural de mulheres
2. Registro fílmico da linguagem gestual do cotidiano
3. Animação do grupo (jogos dramáticos e videofeedback)

O filme As bordadeiras apresenta o retrato de uma iniciativa de desenvolvimento local, numa cidade do meio rural brasileiro, e a importância da ação de agentes de desenvolvimento locais. As entrevistas realizadas com os habitantes da cidade mostram-se como um importante registro de memória cultural numa região onde a tradição oral é ainda a maior fonte de dados sobre sua história e cultura.

O objetivo foi apontar a importância da participação comunitária e, por extensão, da pesquisa participativa, nos projetos de desenvolvimento durável ou sustentável.

Em 2001, um novo documento de pesquisa foi realizado na mesma comunidade: AS BORDADEIRAS.

Uma associação de artesãs no interior de Minas Gerais, Brasil, é revista onze anos depois por uma equipe de pesquisadores.

Por que a associação sobreviveu apesar das dificuldades?
Quais são as mudanças na cidade e na vida de seus habitantes?

As artesãs falam de seus cotidianos e da tradição do bordado de Abrolhos através das gerações.

Cida Chaves, responsável pela fundação da Associação, conta sua trajetória tentando recuperar a tradição local e o resgate do valor do trabalho das mulheres da região, fazendo, ao mesmo tempo, uma reflexão sobre o Brasil enquanto país em desenvolvimento.

A participação de comunidades no seu próprio processo de desenvolvimento e o papel dos agentes como articuladores desse desenvolvimento é a reflexão que nos traz este documentário.