ALFABETIZAÇÃO e CONSCIENTIZAÇÃO

O Brasil ocupa, ainda, o 46º lugar em alfabetização na lista das Nações Unidas, com somente 83% da população acima de 15 anos alfabetizada. É importante observar que este dado, segundo as Nações Unidas, se refere a pessoas acima de 15 anos de idade que podem ler e escrever um curto e simples relato sobre sua vida cotidiana. O que percebemos, nos nossos trabalhos de campo, é que muitos dos que se dizem alfabetizados têm pouca ou nenhuma condição de responder
perguntas simples, se forem formuladas por escrito.

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Apesar da alfabetização ter um papel central na obra de Paulo Freire, esta não se reduz a um conjunto de técnicas ligadas à aprendizagem da leitura e da escrita, como muitas vezes se supõe. Trata-se de um instrumento através do qual pode-se chegar à politização do povo, que deixa de entender sua situação desprivilegiada apenas como destino ou desejo divino e passa a percebê-la como determinação do contexto econômico-político-ideológico da sociedade, da qual são produto, mas também produtores.

Assim, a idéia de Freire - e o que nele há de revolucionário - é a possibilidade de conjugar a leitura da palavra, à leitura do mundo; tirando o alfabetizando da inércia e da apatia na qual se encontram, enquanto excluídos, e fazendo-os perceber o seu lugar na sociedade, como produtores de cultura. Daí, eles percebem a importância e a necessidade de se apropriarem da leitura e da escrita. É o primeiro passo da alfabetização, politicamente falando.

Neste sentido, os participantes do "círculo da cultura", como ele chamava as salas de aula, instauram um diálogo - principal veículo pedagógico da educação conscientizadora - instigados pelo coordenador, sobre aspectos ligados à sua própria realidade, visando aprofundar suas leituras do mundo e possibilitando re-leituras, a partir de um engajamento político com vistas à transformação da sociedade.

O processo sempre parte da realidade dos alfabetizandos e de seu universo vocabular. Ao mesmo tempo em que estimulam sua participação política, as "palavras geradoras" - escolhidas em pesquisa anterior ao processo por sua representatividade e riqueza fonêmica - vão instrumentalizando a leitura e a escrita dos participantes. Elas são apresentadas em ordem crescente de dificuldade fonética e lidas dentro do contexto de vida dos participantes, levando sempre em conta a linguagem e a cultura local.

"A conscientização é um compromisso histórico (...) implica que os homens assumam seu papel de sujeitos que fazem e refazem o mundo. Exige que os homens criem sua existência com um material que a vida lhes oferece (...) está baseada na relação consciência-mundo".">

A eficácia do "Método" de alfabetização de Paulo Freire estaria exatamente no seu ponto de partida: a realidade do alfabetizando, tudo aquilo que ele já conhece. Levam-se em conta e valorizam-se os fatos de sua vida cotidiana mas, ao inscrevê-los em um contexto maior em que aparecem como oprimidos, nasce a vontade de superação desta condição.

Trata-se de buscar conscientizar os alfabetizandos em relação à sua capacidade de transformar e reinventar a história, apropriando-se dela e, assim, assumindo seu papel de sujeitos, engajados e felizes. Por isso, o "Método" vai além das normas metodológicas e lingüísticas, ele incita a politização e a conscientização do lugar de cada um no mundo, como produtor da cultura, da sociedade e de seu próprio destino.

Não se trata de uma inversão dos pólos oprimido-opressor, mas antes a superação desta lógica perversa, que exclui e aliena, interditando a leitura do mundo às classes desfavorecidas da sociedade.

Neste contexto, as idéias de Paulo Freire são de grande utilidade não só para as práticas educativas, mas para as iniciativas e trabalhos que busquem a participação de comunidades, de maneira geral. Se hoje a participação comunitária é vista como fundamental ao processo de desenvolvimento e a todas as pesquisas que se inscrevem neste âmbito, ainda existem muitas dúvidas sobre formas de incitar esta participação. Ora, muitas pistas encontram-se em Paulo Freire e a principal está no seu posicionamento contra as cartilhas.

Como exemplo de trabalho na linha de alfabetização de adultos, inspirado nas idéias de Paulo Freire, destacamos o Programa de Alfabetização de Adultos do Estado do Amapá. Resultado de um convênio assinado entre o Governo do Estado do Amapá e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o projeto é coordenado pela professora Iza Guerra Labelle (Escola de Serviço Social-UFRJ) e pretende, além de ensinar jovens e adultos a ler e a escrever, inscrevê-los no processo produtivo, melhorando, assim, sua qualidade de vida. Como pressuposto básico do trabalho está a consideração e o respeito à realidade própria da região, cuja história, cultura e modos de sobrevivência são validados e revalorizados, servindo como ponto de partida para o processo de alfabetização.

Se ele não acreditava no uso de cartilhas para o processo de alfabetização, é possível que também não acreditasse nas mesmas para a participação das comunidades. O que ele deixa como possibilidade é a valorização da cultura e do saber local, tendo o vivido sempre como ponto de partida. Além disso, há a dialogicidade, principalmente enquanto possibilidade de um aprender recíproco; a condenação das práticas bancárias, em que se "deposita" no outro suas próprias crenças e valores, impedindo-os de chegar a uma reflexão crítica da própria realidade; e a busca da conscientização, processo que impele, necessariamente, à ação. Ação transformadora porque libertadora para ambos, opressores e oprimidos.