A porta, a ponte e a rede.
Reflexões para pensar (o conceito de) rede e (o conceito de) comunidade.

Maria Inácia D'AVILA-NETO

O ensaio de Georg Simmel - (A) Ponte e (a) Porta- foi publicado em 1909 e é apontado, pelos seus críticos, como uma chave para entender seu pensamento(1). As idéias, desenvolvidas por Simmel, com as metáforas da ponte e da porta, parecem-nos muito oportunas para pensar as temáticas sobre as quais gostaríamos de refletir aqui: comunidade e redes.

A Ponte é o símbolo da associação, enquanto a porta seria o agente da dissociação. Podemos imediatamente imaginar que uma liga e a outra separa:

"(...) A noção de separação seria desprovida de sentido se nós não tivéssemos começado a religá-las (como as margens do rio) , nos nossos pensamentos finalizados, nas nossas necessidades, na nossa imaginação"(2)

Vemos aí uma primeira pista: ponte e porta revelando que a "ruptura fundadora entre o homem e o mundo"(3) impõe como, diria Martuccelli, "um desejo, por vezes irresistível, de uma totalidade recomposta"(4).

Simmel, entretanto, não sucumbe à "nostalgia" dessa totalidade, que pode, até ser desejada, mas é irrecuperável: "porque o homem é o ser de ligação que deve sempre separar, e que não pode religar sem haver separado (...)"(5)

Unir e separar vão aparecer como dois movimentos em um mesmo processo. Numa leitura, forjada pela tipologia dicotômica de comunidade x sociedade, categorizando as concepções de Ferdinand Tönnies(6), poderíamos ver, na primeira, a ponte e , na segunda, a porta. A concepção de comunidade, cujos laços de solidariedade, engendramento de iguais e fraternos poderiam ser os elementos de nossa nostalgia de uma unidade perdida, tornar-se-ia o oposto de uma sociedade fragmentada , perdida a unidade e desfeitos os laços. Tal leitura, entretanto, é insuficiente. Tanto na "comunidade" quanto na "sociedade", temos a presença dos dois movimentos. As comunidades, como lembra Claude Javeau, comentando Simmel, concebidas como pequenos grupos, podem ser "rupturas", caracterizando a "porta", enquanto os grupos maiores (ou a sociedade) podem ser vistos como a "aldeia global", revelando a ponte(7)

"Enquanto que na correlação entre divisão e reunião a ponte coloca o acento
sobre o segundo termo (...), a porta ilustra de modo mais claro a que ponto a
separação e a ligação são dois aspectos do mesmo ato" (8)

O conceito de comunidade ganha uma importante dimensão. Sua discussão não se restringe a um universo fechado, a uma unidade que engendra iguais ligados pela solidariedade. Comunidade e Sociedade deixam de ser tipologias antagônicas ,do mesmo modo que relações macro e microsociais, e assim por diante. É justamente porque a porta pode se abrir que ela pode dar a impressão que exclue mais fortemente tudo que está fora desse espaço, do que uma parede ou um muro, como argumenta Simmel.

Se trouxermos isso para compreensão do mundo tecnológico no qual estamos hoje vivendo ,com o advento da televisão, da telefonia, do computador - e da internet - vamos ser tentados a dizer que construímos muitas pontes e muitas portas. Podemos examinar aí a visão "reticular" no mundo contemporâneo, ou seja, o conceito de uma" sociedade em redes", aplicado ao nosso quotidiano.
Diante do monitor do meu computador, abro uma porta. Posso, então, dispondo de uma tecnologia apropriada, conectar-me com o cyberespaço. Pessoalmente, embora já considerada anacrônica na minha rede, faço isso ,ainda, por uma linha telefônica, e às vezes, por fibra ótica, que me lança na rede da Internet, através do meu computador. Aí estabeleço uma ponte. Vou deter-me no aparato computador e não na televisão ou na telefonia. Alguns autores, como Barry Welmann já desenvolveram, na década de 70, na análise do fenômeno urbano, três argumentos, como denomina: o da comunidade, o da cidade e o da rede. O autor falava em comunicações telefônicas, referindo-se à "proximidade" e "redes" aí geradas, para expressar que o deslocamento espacial (como, por exemplo, do campo para cidade) não seria necessariamente causa de desintegração comnitária.
A idéia de um pensamento reticular , contudo, entrando em um novo milênio, vem, particularmente, associada, para nós, usuários, às redes da internet, embora haja uma superposição com tecnologias cada vez mais sofisticadas veiculadas pela telefonia móvel, por exemplo.

A porta aberta do meu computador me anuncia que estou conectada; estabeleci uma ponte , que está me enviando a outro lugar, que me permite transmitir informações, minha imagem e minha voz e receber outras informações, imagens e outras vozes, que por sua vez estão conectadas a mim, através de pontes e portas abertas.

Posso abrir um número enorme de portas, utilizando, por exemplo, os vínculos (links) de cada uma delas, como pontes. Se pudesse desenhar num mapa mundi, teria um imenso número de linhas que me deslocariam por todo o planeta. Teria um desenho das minhas redes, cobrindo todo o globo, talvez, como no conto de Borges, um mapa que seria uma verdadeiro manto da terra, se tivesse que traçar numa escala real todas as distâncias e os espaços que interliga.

Inúmeros trabalhos têm sido dedicados à gênese e compreensão dos mecanismos do "pensamento reticular", ou do "teatro de articulações" da sociedade em redes. Podemos pensar a sociedade em redes como novas formas de comunidades, como pretendem alguns?
O que significa esse avanço em uma sociedade ainda tão desigualmente desenvolvida?

A Rede, um conceito (ou um saco) de metáforas. Minha primeira reflexão obriga-me a abandonar a cartografia de um espaço totalizado, visto de fora. Isso suporia um espaço restrito, imutável, sedentário. O espaço cibernético- o ciber espaço, que alguns preferem dizer ciber-espaço-tempo, pode - ou deve - ser visto como nômade, pois:

"não se constrói em função de uma carta pré-estabelecida, mas ao contrário cresce de maneira anárquica ao ritmo de novas ligações: novos servidores, novos serviços, novos clientes, sem que ninguém possa predizer quem se conectará ao sistema para fazer o que " (9)

Assim, minha cartografia seria tão mutável quanto eu pudesse imaginar e predizer com a velocidade de transmissão de informações que cada ligação (ou ponte) provocasse em minha rede. Convém, antes de prosseguir, examinar , brevemente o conceito de rede.

Como imaginamos, por exemplo, uma rede de um pescador? Uma malha que envolve suas presas , deixando passar todo o resto, isto é ,que retém os sólidos e deixa passar os fluidos. Posso também imaginar uma ferrovia , com caminhos e intersecções que se cruzam, ou deter-me em imagens anatômicas , das circulações internas do corpo.

Saint Simon (1760-1825) é apontado como o introdutor do conceito moderno de rede e sua concepção pois avança para uma concepção de rede também como um sistema de fluxos, falando de corpo bruto e corpo organizado. O próprio organismo pode ser definido como uma rede de circulação (vasos, artérias, etc...) O corpo bruto para Saint Simon tem uma construção regular do tipo geométrico, como o cristal - a primeira forma de rede - enquanto a circulação de fluídos é uma outra variação. A originalidade de sua concepção reside no fato de que aponta a rede também como uma terceira variação, híbrida, entre as duas primeiras, como um organismo - rede. Sua preocupação era assegurar a passagem do sistema feudal ao sistema industrial. Essa passagem do que chamava dominação à associação só poderia ser assegurada com o desenvolvimento das redes de comunicação entre os membros. A derivação dos conceitos implicou na fundação de uma religião saint-simoniana que registra três elementos fundamentais nesse processo: a associação, a comunicação e a comunhão, onde esta se faz pelo trabalho dos associados aplicados ao "planeta interno"
(10). Nesse sentido, muitas redes constituídas através de meios de comunicação, em especial, através de redes como a Internet, e que se pretendem "comunidades" poderiam ser analisadas sob a ótica de uma herança saint-simoniana.

Para autores, inspirados em Saint Simon, como Albert Bressand e Catherine Distler, a rede é o laço universal da sociedade contemporânea, como preconizam em La Planète Relationnelle(11), em 1995, onde podemos encontrar as ressonâncias entre a tecnologia, a economia e organização. Essa concepção é bastante próxima do trabalho de Manuel Castells, numa trilogia publicada, originalmente, nos Estados Unidos em 1996, já com tradução em português e cujo o primeiro volume intitula-se A Sociedade em Redes.
(12)

Castells, evocando Max Weber em sua obra sobre a Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, como um dos fundamentos para a expansão de uma sociedade em redes, traz uma curiosa aproximação com a ótica de Saint-Simon, onde era fundamental estabelecer uma rede de fluxos para a circulação do dinheiro- para realizar a passagem (do corpo) do feudalismo para o (corpo do) sistema industrial, que seria garantido planetariamente, por princípios éticos de seus membros, inscritos na associação e na comunhão, também revestidos de caráter religioso.

Michel Serres, ainda nos anos 60, por sua vez, vai falar dos fundamentos epistemológicos do conceito de rede. Um diagrama em rede é constituído por uma pluralidade de pontos (que ele chama sommets e que poderíamos traduzir por picos ou cimeiras), religados entre eles por uma pluralidade de ramificações (chemins, ou caminhos). Um sommet está na intersecção de muitos caminhos do mesmo modo que um caminho se relaciona com muitos sommets
(13). Há uma semelhança aqui, aliás, com a concepção deleuziana de "mille plateaux" que Mireille Buydens (14) vai utilizar, juntamente com o conceito de rizoma, na sua leitura do fenômeno internet. Serres retoma a idéia de rede, também 1994, em Légende des Anges (Lenda do Anjos) A rede é um ser intermediário, um anjo que anuncia o futuro de uma "nova humanidade"(15).

Anne Cauquelin procura demonstrar porque o conceito de rede é tão bem sucedido. Ela argumenta que ele faz apelo a um imaginário bastante antigo , onde o corpo humano possue muitas coisas invisíveis ao olhar e ao tato , em sua maior parte
(16). A rede seria, então concebida como o laço invisível , ao mesmo tempo externo e interno ao corpo, "reenviando a essa ordem secreta do Cosmos na qual todo corpo se inscreve."(17) .

Essa aproximação lembra também a tradição esotérica, difundida pelas inúmeras sociedades secretas e franco-maçônicas, que estabelece um paralelismo entre o macrocosmos e o microcosmo , decifrando um dos seus mais importantes preceitos: "o que está acima, está abaixo". Essas concepções são retomadas por inúmeros filmes e livros com heróis humanos e seres imaginários de níveis biológicos menos desenvolvidos (plantas ou animais), ou os que são externos ao planeta. A construção desses personagens revela-nos sempre uma ligação com um Cosmo superior , que age como um espelho para uma similitude de expressões , notadamente as afetivas, com a introdução de um objeto mágico que torna a unir os que estão separados.
(18)

Na sua versão da mitologia, o simbolismo da rede está intimamente associado à arte de tecer panos, uma mais antigas e universais que conhecemos(19). Expressões carregadas de fortes significados, como entrelaçar, tecidos, fios, nós, estão aí presentes. Gilbert Durand, o grande patron de Michel Mafesolli, chama a atenção para isso:

(...) O tecido, como o fio é antes de tudo um laço ,mas é também uma ligação reconfortante, ele é símbolo de continuidade, superdeterminado no inconsciente
coletivo pela técnica circular ou rítmica de sua produção. O tecido é o que se opõe à descontinuidade (...) A trama é o que o subtende"
(20)

Ampliando a simbologia, Pierre Musso assinala que

"o imaginário da continuidade do fio e do tecer participa também na produção do conceito de rede nas ciências da vida que recuperam tecidos sobre e no corpo humano".

Assim a idéia de organismo-rede vai se tornar uma metáfora forte nas ciências biológicas e a própria idéia de rede pode ser considerada como uma idéia biometafísica(21)

Na linha mitológica, aliás, Penélope poderia ser a grande heroína da Internet. Tecendo e desfazendo o que tecia, numa incansável tentativa de domínio do tempo, não teríamos aí uma metáfora dos laços fluídos da Internet? A plêiade de metáforas, aliás, não se resume ao conceito de redes. As metáforas são estendidas ao vocabulário utilizado pelos usuários das redes informáticas, talvez porque muito antiga seja a noção no imaginário coletivo, como pretende Cauquelin e, efetivamente, recorrente na história. O Teatro da Memória do italiano Giulio Camilo (1480-1544) é um exemplo. Segundo seus críticos, esse teatro (inacabado), construído em madeira , com figuras e símbolos mitológicos, dispostos em passarelas e colunas, e de onde o observador poderia contemplar a "visão do mundo" , a partir de um ponto , foi construído sobre as mesmas bases que hoje constituem "o fundamento da prática e do vocabulário da nova retórica visual enciclopédica: sites, ícones, janelas, portais, laços (links) e hipertextos"(22).

Inúmeros são hoje os sites na internet que procuram recuperar Camilo, apontado também como estudioso da Cabala, em sua época. A referência da Cabala para Giulio Camilo, aliás, não é inocente: ícones, portais, laços são temas muito encontrados nas tradições esotéricas. O site, introduz, aliás, uma curiosa metáfora para designar a página inicial: home page. Ou seja a página da casa ( home =lar), do que nos é (ou deveria ser) familiar, próximo, mesmo que site possa ser uma casa transitória, que é e deixa de ser, ao mesmo tempo. O site (e seu home), eu diria, para expressar sua complexidade espaço-temporal, é um LUGAR-MOMENTO, um híbrido de lugar - não lugar, explicado pela transitoriedade do tempo, como seu componente.

Enfim, se a rede é um "sac à metaphores" (saco de metáforas), para utilizar a expressão de Pierre Musso, a rede Internet é um esplêndido lugar-momento para o exercício (da reconstrução ?) de uma das nossas mais bem sucedidas metáforas da incompreensão conceitual: a Torre de Babel.

Rede internet como (rede) híbrida

Para prosseguir na análise do que se produz com a abertura/fechamento de portas e pontes, através da Internet, vamos enumerar alguns aspectos que podem nos elucidar seu caráter híbrido. A dinâmica da porta de da ponte, isto é ,do que separa e une, é uma temática que vai aparecer em vários ensaios da obra de Simmel, como em um dos mais comentados: Digressões sobre o Estrangeiro. O estrangeiro, ligado ao seu mundo de origem e tentando se adaptar,"miméticamente", a um mundo novo é, antes de tudo, a expressão de um híbrido. Em primeiro lugar , eu diria que a rede internet - quando a utilizamos- nos faz perceber esta "estrangeiridade", que Simmel admite em cada um de nós. Somos híbridos que tentam se comunicar entre si; somos ao mesmo tempo os de fora e os de dentro, face às inúmeras comunidades que se constituem em redes e através dela (s). Podemos ser comunidades quando abrimos as portas e pontes que nos são familiares, ou estranhos quando quando elas nos enviam a "outros mundos".

Mas não somos -nós os usuários - os únicos híbridos. A própria rede internet é um produto híbrido , ou intermediário, como nos convida a pensar o especialista em ciências políticas Lucien Sfez, e que resumiremos aqui
(23):

1- Intermediário entre o oral e o escrito
Na transmissão de suas mensagens, encontramos um padrão ,muitas vezes próximo da transmissão oral, assemelhando a uma conversação, ainda que utilizando recursos da escrita.

2- Intermediário entre o público e o privado
É um local público, aonde todos têm acesso e onde se pode estabelecer contactos com uma suposição de privacidade, mais individualizados. Aqui também se pode decidir sobre a privacidade ou não que queira dar às minhas informações.

Eu acrescento que esse aspecto é sempre abalado pelos hackers, mas os programas de correio eletrônico são uma evidência do que estamos falando: podemos escolher mandar resposta para um ou para todos, com cópias ocultas ou não.

3- Intermediário entre a generalidade e universalidade
A generalidade envolve um certo número de indivíduos aos quais se pode contar sempre mais um, enquanto a universalidade prescinde dessa conta para sua validação em todos os lugares e a todo momento.(...)

"falar a todos e ter acesso a todo saber , o que é o requisito dos internautas , só
pode se compreender como uma generalidade transformada em universal. Em suma, uma metáfora"

4- Intermediário entre realidade e virtual
Aqui vemos uma função de intermediação, a de ligar dois mundos, dois domínios, "estabelecer passarelas" - que, acrescento, poderíamos chamar pontes -, como a própria função dos "sistemas reticulares ", tornando-se uma substância: "substância impalpável, que se manifesta somente em ação"

Comunidades e ciber-espaço-tempo

A busca de uma comunidade perdida, constituída por laços fraternos e solidários, domina grande parte da literatura já produzida sobre o assunto, inclusive em nosso próprio programa interdisciplina. Essa busca da utopia comunitária, agora retorna revestida de uma linguagem pós-moderna, como se nossas próprias incertezas e angústias contemporâneas pudessem ser amenizadas pela introdução da discussão do híbrido e suas metáforas. A fraternidade e a solidariedade são temas caros a muitos estudantes nossos, que, quase religiosamente, procuram essa (re) ligação com as fontes perdidas.

Essa tentação comunitária, para aplicar a expressão de Marcel Bolle de Bal
(24), é reativada pelas redes e, no caso, pela Internet. Nesse caso ,concordamos com Sfez que a rede internet não é uma utopia, mas uma ideologia. Uma ideologia poderosa que confundindo informação com saber, não pode transformar em sábios do MIT, o professor nigeriano sem laboratórios, assistentes e locais adequados para desenvolver as tecnologias(25). - Esse é um debate que gostaríamos de retomar ao examinarmos a inclusão digital,em outro momento.- Do mesmo modo, as comunidades internáuticas não são comunidades, dentro da acepção dos laços fraternos e solidários reconstituídos. Elas são, antes, agregações de interesses comuns, talvez mais transitórias que a freqüência a um determinado clube ou partido político, e que se fossem instituídas como comunidades, como uma espécie de retorno à unidade em sua totalidade, perderiam o próprio caráter de fragmentação, hibridação e transitoriedade, que caracterizam as redes informáticas, como é caso da internet, e seus produtos. Entendemos aqui que tais comunidades são produzidas pelas interações de usuários, através do veículo rede internet e não como uma comunidade original que se utiliza da internet. Essa segunda hipótese implicaria no estudo de um movimento social, por exemplo, numa outra acepção de rede, como Redes que Dão Liberdade, título de um trabalho de autores espanhóis sobre os movimentos sociais contemporâneos(26). Poderíamos, então, como exemplo, estudar como se mantém, através de redes informáticas, o movimento zapatista, em Chiapas e Oaxaca, no México.(27)

Nossa exploração aqui limita-se aos processos de imaginário e memória coletivos para pensar comunidades, a partir de nossa interação internética ou internauta. Mesmo considerando os enormes avanços que os computadores e a rede internet tiveram, desde que foram criados , os físicos insistem que a grande revolução está por vir. Serão os computadores quânticos, onde o isomorfismo entre os processos psíquicos e os processos microfísicos passarão da teoria para a aplicação prática. Esses computadores vão partir da leitura técnica da codificação binária , como é hoje atualmente, para permitir "uma leitura do terceiro incluso" nessa mesma codificação:

"Pela primeira vez na história existe a possibilidade de integração do finito que nós
somos na unidade entre o infinitamente pequeno e infinitamente grande (...) Nós
assistimos, talvez, ao nascimento do primeiro tipo histórico de interação ternária
(infinitamente pequeno, infinitamente grande, infinitamente consciente)"

Se essa idéia, de físicos como Basarab Nicolescu, é correta, teremos que re-pensar nossas causalidades:

A "causalidade no ciber espaço tempo é diferente da local, regendo o nível
macrofísico e da global regendo o nível quântico . Ela é uma causalidade
( à boucle) aberta , devida á interface homem/-ciber-espaço-tempo" .

A questão chave será a mudança de um sistema de referência , "introduzindo-se uma nova maneira de compreender a dialética entre simplicidade e complexidade". (28)

No senso de Simmel, a unidade é desejada ,mas não deve ser atingida . A grande aventura é a busca , não o tesouro. Na ficção científica Matrix, o personagem Morfeu diz a Neo, como nas iniciações se fala aos neófitos: eu mostro a porta, mas você deve atravessá-la.

"(...)Através da possibilidade de uma troca duradoura, de modo diferente do ponto, que liga finito ao finito , mas que, ao contrário, nos eleve quando nós a ultrapassamos, (...)antes que o costume quotidiano embote nossas reações, e nos dê o estranho sentimento de planar entre o céu e a terra por um instante. Enquanto a ponte , linha estendida entre dois pontos, prescreve uma segurança e direção absolutas, a porta é assim feita para que por ela a vida se expanda fora dos limites do ser isolado, até ao ilimitado de todas as orientações"(29), responde Simmel.


* Professora Titular do Instituto de Psicologia da UFRJ, área de Psicossociologia de Comunidades e Ecologia Social, é também coordenadora da UNESCO CHAIR ON SUSTAINABLE DEVELOPMENT, instalada por convenção assinada entre a Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura e a UFRJ.

1) Freund,Julien -Introdução à tradução francesa da obra de Georg Simmel- Sociologie et Epistémologie, Paris, PUF, 1981
2) Todas as versões aqui apresentadas são livres para o português/Brasil, pela autora
3) Ver Danilo Martuccelli -Sociologies de la Modernité -L´Itinéraire du XX siècle -capítulo: Georg Simmel ou la modernité comme aventure , Paris ,Ed.Gallimard, 1999
4) Martucelli, D. -op. cit
5) Simmel,G.-op. cit
6) A obra de Ferdinand Tönnies-Comunidade e Sociedade foi publicada em 1887
7) Javeau,Claude-Georg Simmel et la vie quotidienne -Tür et Brücke et socialité ,na coletânea organizada por Watier,Patrick -Georg Simmel et l´expérience du monde moderne , Paris, Ed.Meridiens Klincksieck, 1986
8) in Simmel, G. op. cit.
9) Buydens,Mireille -La forme devorée.Pour une approche deleuzienne d´Internet in L´ Image-Deleuze, Foucault, Lyotard ,Paris, Ed.Vrin, 1997
10) Musso, P.-Genèse et Critique de la Notion de Réseau -in Parrochia,D.(sous la direction) Penser les Réseaux, Seyssel, Ed.Champ Vallon, 2001
11) Publicado por Ed.Masson, Paris, 1995 e mencionado no artigo de Pierre Musso
12) Castells, M. -La société en réseaux (version française), Paris, Ed.Fayard, 1998
13) Serres, M. Hermés I-La communication -Le réseau de communication:Pénélope ,Paris, Ed.Minuit, 1968
14) Buydens, M. Op. cit.
15) Serres,M.-La légende des anges, Paris Ed.Flammarion, 1994
16) Cauquelin, A.-Concept pour un passage in Images et Imaginaires des réseaux, Paris, Univ.Paris IX-Dauphine, 1987-88
17) Comentário de Pierre Musso , op. cit.
18) É curioso observar que nos atuais best-sellers e outras produções da mídia contemporânea , cresce o número de seres híbridos ,pertencentes , ao mesmo tempo, a "dois mundos". É justamente o fato de serem híbridos que torna esses seres com funções de cognição superdotadas e com poderes excepcionais.
19) A realização de uma pesquisa com uma associação de bordadeiras, no interior de Minas Gerais, sobre sua memória cultural (1990) e, posteriormente em 2001, sobre a representação dessa comunidade a respeito das questões de desenvolvimento, revelou-nos importantes pistas para a reflexão do ato de tecer e as redes , bem como o tempo para a compreensão do desenvolvimento , como uma categoria geracional ,não necessariamente linear e individual. Ambas as pesquisas foram realizadas para a UNESCO. Para consulta ver Participação e Desenvolvimento Sustentável- Novas Estragégias, Velhos Desafios, Cdrom produzido pela autora com a equipe do Laboratório de Imagens do Programa EICOS, com colaboração da professora Rosa Pedro, e distribuído pela UNESCO, 2001/2002
20) Durand, G.-Les structures anthropologiques de l´imaginaire, Paris, Ed.Dunod, 1969
21) 'Musso, P. Op. Cit.
22) Comentário de Bertrand Schefer na introdução à obra de Giulio Camilo, Le théâtre de la Mémoire, Paris, Ed. Allia, 2001 ,donde o título original em italiano:L´Idea del Theatro
23) Sfez,L. -Le réseau: du concept initial aux technologies de l ´esprit contemporaines in Penser les Réseaux, op. cit.
24) Bolle de Bal, M. -La tentation communautaire,Bruxelas, ed.Univ.Bruxelas, 1986
25) Sfez, L.-op.cit.
26) Riechmann ,J. e Buey, F.F.-Redes que dan libertad -introduccion a los nuevos movimentos sociales -
Barcelona , 1994
27) Stelle, C.-El zapata finisecular:culturas hibridas,neoliberalismo y el ultimo levantamiento maya de Chiapas/Zapata and te close or te century:hibrid cultures,neoliberalism and the recent maya uprising in Chiapas, in D´Avila Neto, M.I.-Social Development, Challenges and Strategies , UNESCo Chair Publ.,1995
28) Nicolescu, B. -Le cyber- espace- temps et l ´imaginaire visionnaire in Parrochia,D. Op.cit
29) Simmel,G.-Pont et Porte , in Tragédie de la Culture et autres essays, Paris, Rivages, 1988